Portugal: Entre o Horizonte e o Presente
- Raquel Silva
- 10 de jun.
- 5 min de leitura
No Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, é habitual olhar para trás e recordar os feitos do passado. Celebramos a fundação do reino, os Descobrimentos, a língua, a cultura e os homens e mulheres que ajudaram a construir a identidade portuguesa.
Mas talvez este seja também um momento oportuno para colocar uma questão diferente:
Quem somos nós, enquanto povo?
Há dias ouvi uma frase do humorista Jimmy Carr que ficou a ecoar na minha mente:
"Happiness is your current situation minus your expectations." (A felicidade é a tua situação atual menos as tuas expectativas.)
Embora simplista, a frase contém uma provocação interessante. Muitas vezes, o sofrimento não resulta apenas das circunstâncias que vivemos, mas da distância entre aquilo que existe e aquilo que acreditamos que deveria existir.
Esta observação aplica-se não apenas às pessoas, mas também às comunidades, às culturas e às nações. E talvez valha a pena perguntar:
Será que Portugal vive, em parte, nessa distância entre a realidade e as expectativas?

Um país no fim da terra
Portugal é uma das nações mais antigas da Europa. As suas fronteiras mantêm-se relativamente estáveis desde o século XIII, algo raro no contexto europeu.
Mas a geografia portuguesa possui uma característica singular.
Estamos encostados ao Atlântico. Não somos uma ilha, mas quase.
Entre nós e a Europa encontra-se Espanha.
Para lá de nós encontra-se o oceano.
Se olharmos para um mapa, parece quase que o território português termina num convite. Ou numa pergunta.
Durante séculos, o mar foi simultaneamente uma promessa e um desafio. Foi uma porta para o desconhecido, para o comércio, para a aventura, para a riqueza e para o encontro entre culturas.
Mas também foi um símbolo.
O horizonte atlântico tornou-se parte da nossa imaginação coletiva. Poucos povos viveram durante tanto tempo voltados para uma linha que nunca se alcança. Talvez isso tenha moldado algo na nossa forma de estar no mundo.
A língua como pátria
Fernando Pessoa escreveu:
"Minha pátria é a língua portuguesa."
A frase continua a ressoar porque toca numa dimensão profunda da identidade nacional.
Portugal nunca foi uma potência pela dimensão territorial. Mas a língua portuguesa atravessou oceanos e continentes. Hoje é falada por centenas de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo.
Mais do que um instrumento de comunicação, a língua transporta uma visão da realidade. Autores como Agostinho da Silva, António Telmo ou Teixeira de Pascoaes refletiram sobre a possibilidade de existir uma sensibilidade portuguesa própria, expressa através da linguagem.
Talvez nenhuma palavra represente melhor essa singularidade do que "saudade". A saudade não é apenas nostalgia.
É a presença da ausência.
É a memória do que foi e o desejo do que ainda não chegou.
É uma palavra que vive precisamente na fronteira entre o passado e o futuro.
Talvez por isso seja tão portuguesa.
Os mitos que habitamos
A cronologia conta a história material. A mitologia conta a história da psique.
A primeira procura responder à pergunta: "O que aconteceu?"
A segunda pergunta: "O que significa?"
Ao longo dos séculos, Portugal acumulou uma quantidade impressionante de mitos.
O Encoberto.
O regresso de D. Sebastião.
O Quinto Império.
A vocação atlântica.
A missão universal.
O povo eleito para uma tarefa espiritual.
Não importa aqui discutir se estas ideias são verdadeiras em sentido literal.
Os mitos não sobrevivem porque são factualmente corretos. Sobrevivem porque expressam algo que continua vivo no interior da alma humana.
Por isso, mais interessante do que perguntar se o Quinto Império existirá algum dia, talvez seja perguntar:
Porque continua esta ideia a fascinar?

O Jardim das Hespérides
Existe uma antiga tradição que associa o extremo ocidental da Europa ao Jardim das Hespérides da mitologia grega.
Segundo o mito, era nesse jardim, situado para lá das terras conhecidas, que cresciam as maçãs douradas da imortalidade.
Não sabemos onde os gregos imaginavam esse lugar.
Talvez fosse na Península Ibérica.
Talvez nas ilhas atlânticas.
Talvez em lado nenhum.
Mas o simbolismo permanece.
O paraíso situa-se sempre para lá do horizonte. Existe sempre algo mais além. Algo que ainda não alcançámos. Algo que dará finalmente sentido à viagem.
A mesma estrutura aparece em inúmeros mitos, religiões e filosofias. E talvez também na história portuguesa.
O mar e as muralhas
Na aclamada série de mangá e anime escrita e ilustrada por Hajime Isayama, Attack on Titan, os protagonistas sonham durante anos em alcançar o mar.
Para eles, o oceano representa a liberdade.
As respostas.
O destino.
A verdade.
Mas quando finalmente chegam ao mar, descobrem algo inesperado.
O mar não resolve os seus problemas.
Não é o fim da história.
É apenas o início de novas perguntas.
Talvez aconteça o mesmo com os indivíduos.
Talvez aconteça o mesmo com as nações.
Passamos grande parte da vida convencidos de que a felicidade está do outro lado da próxima conquista.
Quando terminar o curso.
Quando encontrar o emprego ideal.
Quando tiver mais dinheiro.
Quando encontrar a pessoa certa.
Quando chegar o Quinto Império.
Mas o horizonte afasta-se sempre.
E talvez seja precisamente essa a armadilha das expectativas.
Entre o destino e a responsabilidade
Uma das leituras possíveis do Quinto Império é entendê-lo como um destino.
Algo que acontecerá.
Algo que virá.
Algo que nos revelará finalmente quem somos.
Mas existe outra leitura.
Talvez o Quinto Império não seja um destino. Talvez seja uma tarefa.
Talvez não seja um acontecimento histórico. Talvez seja um convite ético.
Nesse caso, deixa de depender de profecias.
Passa a depender da forma como vivemos.
Da forma como educamos.
Da forma como trabalhamos.
Da forma como cuidamos uns dos outros.
Da forma como cultivamos cultura, conhecimento, sabedoria e humanidade.
Entre a realidade e as expectativas
Voltamos assim à frase de Jimmy Carr.
"A felicidade é a tua situação atual menos as tuas expectativas."
Talvez o sofrimento de uma pessoa nasça, muitas vezes, da distância entre aquilo que vive e aquilo que imagina que deveria viver. Talvez o sofrimento de um povo possa nascer do mesmo lugar.
Entre a glória passada e o futuro sonhado existe uma realidade concreta. Um país real.
Com virtudes e limitações.
Com problemas e potencialidades.
Com desafios e oportunidades.
Talvez o maior desafio não seja recuperar um passado perdido nem esperar um futuro grandioso.
Talvez seja aprender a reconhecer o valor do presente.
Porque o horizonte é importante.
Os sonhos são importantes.
Os mitos são importantes.
Mas nenhum deles substitui a vida que está a acontecer agora.
Neste Dia de Portugal, talvez possamos honrar simultaneamente as nossas raízes e os nossos horizontes.
Sem nostalgia excessiva.
Sem messianismos.
Sem fatalismos.
Com os pés na terra.
E os olhos no mar.
Porque é nesse equilíbrio que, talvez, se encontre a verdadeira maturidade de um povo.
Nota de edição
A revisão do texto contou com o apoio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), utilizada como assistente na clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos.



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