top of page

Quando a Justiça Não Chega: o Luto Invisível que Pode Bloquear a Tua Cura

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 13 de ago.
  • 7 min de leitura

Como deixar de entregar a tua paz a quem te magoou - sem forçar o perdão, negar a raiva ou fingir que não foi injusto.


Nas minhas consultas, utilizo frequentemente o Tarot e os oráculos como ferramentas de espelhamento e de apoio ao processo terapêutico. Há, no entanto, um momento que conheço bem: aquele em que surge uma carta que fala de perdão, de aprendizagem ou da necessidade de libertar... Nesse instante, o olhar muda.



Podemos acreditar, racionalmente, que o perdão é possível. Podemos até ter-nos convencido de que o assunto já foi ultrapassado. Mas, perante aquela carta, surge um murro no estômago. De repente, torna-se evidente que ainda existe dentro de nós uma fome de justiça - por vezes, até um desejo de retaliação ou vingança.


E a pergunta impõe-se:

Como se perdoam atos, atitudes ou comportamentos que nos magoaram e que, em determinado momento, pareceram destruir-nos?


Talvez o primeiro passo seja parar de tratar o perdão como uma obrigação.


A raiva como sistema imunitário emocional

Se sentes raiva, revolta ou resistência quando alguém te fala em perdão, respira. A tua reação não é prova de falta de evolução. É uma resposta humana a algo que foi vivido como uma violação.


Gosto de pensar na raiva como uma espécie de sistema imunitário emocional.

Ela aparece para dizer:

Isto ultrapassou os meus limites. Isto magoou-me. Isto foi profundamente injusto.


Reconhecer essa voz pode ser um passo vital.

A raiva contém informação: mostra-nos onde fomos feridas, o que valorizamos e o que já não queremos permitir. Precisa de ser escutada e regulada, não condenada nem deixada a governar toda a nossa vida.


O problema é que vivemos numa cultura - sobretudo em certos círculos de desenvolvimento pessoal e espiritualidade - em que não conseguir perdoar vem acompanhado de uma cobrança silenciosa:

  • “Se ainda não perdoei, não sou uma boa pessoa.”

  • “Não sou suficientemente madura.”

  • “Não sou suficientemente espiritual.”

  • “Continuo presa ao passado.”


Cada uma destas frases acrescenta vergonha à dor. Além de termos sido magoadas, começamos a culpar-nos por ainda sentirmos os efeitos do que aconteceu.

É um duplo sofrimento: primeiro, a ferida; depois, a sensação de que estamos a falhar na nossa própria cura.


Uma escuta verdadeiramente empática e terapêutica não exige perdão nem impõe calendários.

Há processos que precisam de tempo, segurança e espaço. Quando alguém insiste que “já está na hora de perdoar”, pode estar mais interessado em afastar o desconforto da tua dor do que em compreendê-la.

Em contextos espirituais, essa pressa pode assumir a forma de desvio espiritual (spiritual bypassing): utilizar ideias espirituais para evitar emoções, conflitos e feridas que precisam de ser reconhecidos.


A dor não anda em linha reta

A tua dor é real. A necessidade de justiça é real. A necessidade de reparação também é real.

Reconhecê-las não significa alimentá-las para sempre; significa deixar de lutar contra a verdade da tua experiência.



Além disso, a dor não é linear. Vem em ondas.

Podes passar dias ou semanas sem pensar no que aconteceu e, perante uma palavra, uma data, um lugar ou uma situação semelhante, sentir tudo regressar.


Isso não significa necessariamente que voltaste ao início. Um gatilho não apaga o caminho já percorrido. Pode apenas revelar uma parte da experiência que ainda precisa de cuidado.


Racionalmente, talvez já percebas a armadilha: esperar que a outra pessoa reconheça o mal que fez, peça desculpa ou sofra consequências pode manter a tua vida em suspenso.

Mas a lógica, por si só, raramente chega para acalmar o corpo emocional.


Imagina que és atacada por um animal selvagem numa floresta e ficas ferida. A prioridade será afastar-te do perigo, desinfetar a ferida, procurar ajuda e recuperar. Não irás atrás do animal para lhe pedir explicações, arrependimento ou reparação.


Nas relações humanas, porém, é diferente. Houve vínculo, confiança, expectativas e significado. Por isso, voltamos mentalmente à “fera”, esperando que ela se transforme em alguém capaz de reconhecer a nossa dor.

Não é ingenuidade: é a tentativa de restaurar a coerência de um mundo que deixou de fazer sentido.


Quando o mundo deixa de parecer justo

A psicologia descreve a crença num mundo justo: a tendência para acreditar que o mundo é, no essencial, ordenado e que as pessoas acabam por receber aquilo que merecem. Esta crença oferece previsibilidade e uma sensação de controlo.

Se formos boas pessoas, fizermos as escolhas certas e tratarmos os outros com respeito, queremos acreditar que estaremos protegidas.


Em algumas vivências espirituais, esta crença pode ligar-se à ideia de uma justiça divina ou cósmica: o Karma, o Universo ou uma força superior acabará por punir o mal e recompensar o bem. Esta formulação espiritual não é, em si mesma, um “viés” clínico reconhecido; é uma forma possível de dar sentido à vida e à injustiça.


O sofrimento aprofunda-se quando a realidade contradiz essa visão:

  • Se eu sou uma boa pessoa, porque é que isto me aconteceu?

  • Porque é que quem me fez mal continua a prosperar enquanto eu tento juntar os meus cacos?


Nesse ponto, já não estamos apenas a sofrer pelo que aconteceu. Estamos também a sofrer porque uma convicção fundamental ruiu.

O mundo deixou de parecer previsível, seguro e moralmente equilibrado.


Porque é tão difícil “largar” uma história sem fim?

A dificuldade em seguir em frente não é falta de maturidade nem de evolução espiritual. Muitas vezes, é a mente a tentar proteger-nos do caos e a procurar uma conclusão que devolva sentido à experiência.


Há três processos que podem ajudar a compreender esta insistência:


  1. A crença num mundo justo

    Quando esperamos que o bem seja recompensado e o mal punido, ver quem nos feriu continuar a sua vida pode ser profundamente desorganizante.

    A mente procura uma correção moral: uma confissão, um pedido de desculpa, uma consequência ou qualquer sinal de que a ordem foi reposta.


  2. A força das situações inacabadas

    O chamado efeito Zeigarnik ficou conhecido pela ideia de que tarefas interrompidas ou inacabadas podem permanecer mais acessíveis na memória do que tarefas concluídas.

    A investigação posterior mostra que este efeito não é uma lei universal, por isso convém não o transformar numa explicação total para a dor relacional. Ainda assim, a imagem ajuda a compreender algo familiar: quando não houve reconhecimento, resposta ou desfecho, a história pode parecer sem ponto final.

    A mente regressa ao acontecimento, revê conversas e imagina o que deveria ter sido dito. Procura fechar o ciclo, mas continua a procurar a chave na reação do outro.


  3. O peso dos custos irrecuperáveis

    A falácia dos custos irrecuperáveis descreve a tendência para continuarmos ligadas a uma decisão ou investimento por causa do tempo, esforço ou recursos já despendidos, mesmo quando persistir deixou de nos beneficiar.

    No sofrimento emocional, pode surgir um raciocínio semelhante: Já sofri tanto. Já perdi tanto tempo. Se seguir em frente sem justiça, é como se tudo tivesse sido em vão.

    Mas avançar não apaga o que aconteceu nem declara que foi aceitável. Apenas reconhece que nenhuma sentença futura consegue devolver exatamente o tempo, a confiança ou a versão de ti que existia antes.

    O que pode nascer agora é outra coisa: proteção, significado, escolha e uma vida que já não depende do comportamento de quem te feriu.


O luto duplo que ninguém vê

Por vezes, a libertação exige atravessar dois lutos:

  • O luto pela situação em si - pela dor, pela perda, pela traição, pelo abandono ou pelo trauma vivido.

  • O luto pela visão do mundo que se perdeu - a crença de que ser boa pessoa nos mantém a salvo, de que todos reconhecem o mal que fazem ou de que a justiça chega sempre de forma visível.


Este segundo luto é muitas vezes invisível. Não choramos apenas uma relação, uma oportunidade ou uma parte da nossa história. Choramos a pessoa que éramos quando ainda acreditávamos que certas coisas nunca nos poderiam acontecer.


É aqui que o trabalho terapêutico vai muito além de quem causou a ferida. O centro deixa, pouco a pouco, de ser “O que deveria acontecer àquela pessoa?” e passa a ser:

  • O que preciso de reconhecer em mim?

  • Que limites precisam de ser reconstruídos?

  • O que me devolve segurança no presente?

  • Que significado quero dar à minha história?

  • Como posso deixar de adiar a minha vida enquanto espero por uma reparação que talvez nunca chegue?


Poço Iniciático na Quinta da Regaleira, Sintra.
Poço Iniciático na Quinta da Regaleira, Sintra.

Perdoar não é absolver, esquecer ou reconciliar

Para algumas pessoas, o perdão acaba por surgir como uma forma de paz interior. Para outras, a palavra nunca se torna útil.

Nenhum destes caminhos, por si só, determina a profundidade da cura.


Perdoar, quando acontece, não exige negar a gravidade do que foi feito. Não significa esquecer, justificar, retirar consequências, restabelecer contacto ou reconciliar. E curar não exige necessariamente perdoar.


Podes reconhecer a injustiça e, ao mesmo tempo, decidir que ela não continuará a ocupar o centro da tua vida.

Podes manter limites firmes sem viver permanentemente em guerra.

Podes libertar-te sem absolver quem nunca assumiu responsabilidade.


A verdadeira viragem não acontece quando forças um perdão artificial para provares que és evoluída. Acontece quando consegues sustentar uma verdade dura e libertadora:

a vida pode ser profundamente injusta; algumas pessoas podem magoar-nos sem nunca se arrependerem; e a nossa cura não pode ficar refém da maturidade de quem nos feriu.


Tirar a chave da tua paz das mãos do outro

Recuperar o teu poder não é assistir à punição do outro pelo Universo.

Também não é fingir que nada aconteceu.

É retirar a chave da tua paz das mãos de quem te magoou.

É tratar a ferida que ficou, procurar apoio quando necessário, reconstruir limites e permitir que a tua vida volte a expandir-se. Não por causa do que te fizeram, mas apesar do que te fizeram.


Talvez a justiça externa ainda chegue. Talvez não.

Procurá-la através dos meios adequados pode ser legítimo e necessário.

O que não precisa de ficar suspenso é o teu direito a cuidar de ti enquanto esperas - ou mesmo quando decides deixar de esperar.


Não tens de chamar perdão a esse processo.

Podes chamar-lhe regresso a ti.



Nota: Este artigo tem carácter informativo e reflexivo e não substitui acompanhamento psicológico, médico ou jurídico. Se estás a viver uma situação de violência, abuso ou perigo, procura apoio especializado e recursos de emergência adequados à tua localização.


Bibliografia

American Psychological Association. “Just-world hypothesis”, APA Dictionary of Psychology.

Arkes, H. R., & Blumer, C. (1985). “The psychology of sunk cost”. Organizational Behavior and Human Decision Processes, 35, 124–140.

MacLeod, C. M. (2020). “Zeigarnik and von Restorff: The memory effects and the stories behind them”. Memory & Cognition, 48, 1073-1088.


Nota de edição

A criação deste conteúdo contou com o apoio de ferramentas de IA - ChatGPT (OpenAI) e Gemini.google - utilizadas como assistentes na clarificação de ideias, revisão linguística, organização de conteúdos e criação de imagem.

 
 
 

Posts recentes

Ver tudo

Comentários


Entre em contacto

Tem alguma dúvida?

Quer agendar uma sessão ou saber mais sobre os nossos eventos?
Será um prazer conversar consigo e ajudar no que precisar.

Escreva-nos e receba resposta em breve.

  • Facebook
  • Instagram
Formulário de contacto:

Agradecemos o seu contacto!

Terapias complementares e holísticas

Jade Lavanda - O Cuidado pela Sabedoria

©2023 | Jade Lavanda

bottom of page