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Rende-te e Torna-te Inteiro - Reflexão sobre o Capítulo 22 do Dao De Jing

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 27 de abr. de 2025
  • 5 min de leitura

No capítulo 22, o Velho Mestre continua a desconcertar-nos com os seus ensinamentos paradoxais:


Rende-te... e tornar-te-ás inteiro.

Dobra-te... e serás retificado.

Esvazia-te... e serás preenchido.

Desgasta-te... e serás renovado.

Possui pouco... e receberás muito.

Possui muito... e perder-te-ás na confusão.


A pessoa sábia abraça o Um,

e torna-se exemplo para todos sob o céu.


Não disputa,

e por isso nada no mundo lhe resiste.

Não se exibe,

e por isso é reconhecida.

Não se vangloria,

e por isso é valorizada.


Os antigos diziam:

"Rende-te, e tornar-te-ás inteiro."

Seria isto uma palavra vã?


Torna-te inteiro...

e regressarás ao Dao.


As primeiras linhas deste capítulo podem parecer desconcertantes ao pensamento lógico e linear. Ceder para vencer? Dobrar para endireitar? Esvaziar para encher? Desgastar-se para renovar?

Estas aparentes contradições convidam-nos a transcender a lógica dualista habitual e a adentrar o entendimento dinâmico do Dao: a união dos opostos, o fluxo contínuo de transformação.


Na perspectiva alquímica, estas linhas evocam o princípio da coincidentia oppositorum — a reunião dos contrários. Tal como na Grande Obra, onde o chumbo (o pesado, o denso, o impuro) deve ser dissolvido para dar origem ao ouro (o puro, o incorruptível), também na vida espiritual é pela aceitação da vulnerabilidade que alcançamos a verdadeira força. Render-se não é sofrer uma derrota: é permitir a transmutação interior.


Assim, aprendemos que:

  • Flexibilidade e força são uma só dança.

  • Humildade e realização caminham lado a lado.

  • Simplicidade e abundância são faces da mesma moeda.

  • Desgaste e renovação não são estágios separados, mas movimentos de um mesmo ciclo de vida.


A pessoa sábia "abraça o Um" — a essência unificada de todas as coisas — e, ao fazê-lo, torna-se um exemplo silencioso para o mundo. Não pelo esforço de convencer, mas pela simples irradiação da sua própria integração.

Aqui, o "Um" é tanto o Dao quanto, em termos alquímicos, o estado de consciência que ultrapassa as polaridades da matéria bruta.


Ao "não disputar", ao "não se vangloriar", a pessoa sábia adota uma postura yin: cede como a água, adapta-se como o vento, sustenta-se como a terra.

Esta escolha deliberada de ceder é a estratégia mais poderosa, pois quem não resiste, não pode ser quebrado.

O Dao recompensa esta rendição com aquilo que verdadeiramente importa: inteireza, harmonia, retorno à Fonte.


Ceder não é quebrar

O Velho Mestre convida-nos a imaginar o junco que se curva perante a tempestade, enquanto o carvalho rígido se parte.

Esta imagem é profundamente alquímica: tudo o que é rígido e fixo demais impede o processo de dissolução (solutio), sem a qual não pode haver regeneração.


Esvaziar-se para ser preenchido é também um gesto alquímico: o vaso deve ser limpo antes de conter o elixir. No nosso trabalho interior, o "esvaziamento" é a purificação das opiniões fixas, dos julgamentos cristalizados, das emoções retidas que bloqueiam o fluxo do Qi.

É um gesto de profunda entrega ao mistério da vida.


Quando nos esvaziamos daquilo que não somos, tornamo-nos aptos a receber aquilo que realmente somos: expressão viva do Dao.


Frase-chave: "Rende-te e torna-te inteiro."

Aqui, a rendição não é passividade, mas sim abertura ativa ao movimento natural da existência.

Ao alinhar-nos com o princípio do Grande Yin (Tai Yin), participamos da grande corrente da vida, fluindo com ela em vez de resistir-lhe.

Tal como no alquímico Solve et Coagula, dissolvemo-nos para nos reconstituirmos num estado mais elevado de ser.


Em síntese:

A proposta de Laozi é radical e simples:

Não tentes vencer pela força: sê como a água, que vence a pedra.

Não tentes possuir: esvazia-te e serás preenchido.

Não tentes ser reconhecido: abraça a tua inteireza e o reconhecimento virá sem esforço.

Não resistas à vida: dobra-te, cede... e serás restaurado ao Dao.


Prática meditativa: "Dobra-te, Rende-te e Torna-te Inteira"


  • Preparação

    Escolha um espaço calmo onde possa ficar de pé, descalça/o, se possível, para sentir o contacto direto com o chão. Feche os olhos suavemente e respire fundo três vezes, inspirando pelo nariz e expirando pela boca, libertando tensões.


  • Entrar na Postura (Vrikshasana)

    Coloque-se de pé, com os pés paralelos e firmemente assentes no solo. Transfira lentamente o peso para o pé esquerdo. Quando se sentir estável, dobre o joelho direito e apoie a planta do pé direito na parte interna da perna esquerda — pode ser na coxa, na barriga da perna ou no tornozelo, mas evite o joelho. (Se necessário, mantenha a ponta dos dedos do pé direito no chão para mais apoio.)

    Una as palmas das mãos em frente ao peito, em posição de prece (anjali mudra).

    Sinta-se como uma árvore viva: as raízes a crescer para baixo, os ramos a estender-se para cima.


  • Visualização e Respiração: Enquanto sustenta a postura, guie mentalmente a seguinte visualização:

    • Inspire profundamente e imagine raízes a crescerem dos seus pés, penetrando suavemente a terra, entrelaçando-se com a energia profunda da vida.

    • Expire lentamente e sinta os seus braços invisíveis a elevarem-se como galhos flexíveis que dançam ao sabor do vento.

    • Em silêncio, repita mentalmente, a cada respiração:

      • Inspire: "Eu rendo-me ao fluxo."

      • Expire: "Eu torno-me inteiro."

    • Sinta o seu corpo a ajustar-se com micro-movimentos — não resista: tal como a árvore cede ao vento sem quebrar, permita-se oscilar suavemente.

    • A cada inspiração, imagine que é preenchida/o pela energia do Dao — uma corrente viva e luminosa que percorre todas as raízes, tronco e galhos.

    • A cada expiração, solte as rigidezes: velhas ideias, julgamentos, exigências. Deixe que sejam levados pelo vento.


  • Lentamente, desça a perna direita e volte a ficar de pé com ambos os pés no chão. Repita os passos anteriores para o lado oposto para cultivar o equilíbrio bilateral.


  • Integração

    Feche os olhos e visualize todo o seu corpo como uma árvore de luz, profundamente enraizada e flexível. Respire fundo três vezes, ancorando a sensação de inteireza e rendição. Termine verbalizando internamente:

    "Assim como a árvore se dobra sem quebrar, eu aceito render-me e tornar-me inteira/o.

    Eu abraço o Um.

    Eu retorno ao Dao."


  • Notas para personalizar:

    • Se alguém tiver dificuldades de equilíbrio, pode fazer a versão com apoio numa parede ou com o pé no chão.

    • Para uma prática mais longa, pode repetir a sequência 2 ou 3 vezes, aprofundando a sensação de flexibilidade e força interior.


(Pode assistir ao áudio da prática aqui e ao resumo desta publicação aqui!)


Bibliografia

Lao Tse (2010). Tao Te King - O livro do Caminho e do Bom Caminhar. Relógio D'Água Editores [Tradução e Comentários de António Miguel de Campos].

Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.

Texto revisto com OpenAI: ChatGPT [Software]. https://openai.com

Imagem criada com inteligência artificial generativa [freepik.com]

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