Regressar à Grande Mãe - Reflexão sobre o Capítulo 20 do Dao De Jing
- Raquel Silva
- 6 de abr. de 2025
- 5 min de leitura
O vigésimo capítulo do Dao De Jing marca uma viragem na voz do autor. Aqui, Laozi deixa de falar apenas em máximas impessoais e entra num registo mais íntimo e confessional. Ele observa o mundo à sua volta e sente-se deslocado — enquanto todos parecem saber o que fazem, ele permanece num estado de “não saber”. Mas este “não saber” não é ignorância: é a sabedoria de quem se libertou das convenções e expectativas sociais.
Desiste da aprendizagem intelectual
e não terás preocupações.
Concordar ou discordar —
será assim tão diferente?
O bem e o mal —
estão mesmo tão distantes?
O que os outros temem, também eu terei de temer?
Este disparate não tem fim!
As outras pessoas parecem felizes,
como se estivessem numa grande celebração.
Na primavera, sobem alegremente as colinas
para admirar a paisagem.
Só eu permaneço tranquilo e impassível,
como um bebé que ainda não sabe rir.
Estou exausto, sem casa para onde voltar.
Os outros têm de tudo —
eu, nada.
Pareço um tolo.
Os outros são claros,
eu, confuso.
Os outros são espertos,
eu, aborrecido.
Vago como o mar,
levado pelo vento de uma tempestade.
Todos têm algo para fazer,
enquanto eu pareço tolo e inerte.
Mas eu sou diferente dos outros:
sou nutrido pela Grande Mãe.
Este é um grande passo. É aqui que deixamos para trás o mundo do conhecimento livresco e começamos a dar os nossos primeiros passos no mundo do Dao experiencial. O Velho Mestre convida-nos a desistir da aprendizagem intelectual — não no sentido de rejeitar o conhecimento, mas de soltar a obsessão por acumular ideias, opiniões, julgamentos.
O primeiro verso estabelece um contraste entre a preocupação mental e a serenidade que nasce do desapego ao saber conceptual. Este é um tema-chave do Taoismo: a sabedoria não vem da mente que analisa, mas da escuta silenciosa do Dao, do fluxo da Vida. Como comenta António Campos:
Quem age de acordo com o Dao confia na espontaneidade natural, por intermédio da qual tudo surge do Nada, espontaneamente e sem esforço — como a água de uma nascente, como o leite que jorra dos seios da Mãe de todas as coisas.
Este modo de viver, em que não há distinção entre os contrários e em que não se separa o bem do mal, parece demasiado perigoso e paradoxal para a maioria. Tudo se apresenta como um todo indistinto — como para um recém-nascido ou para alguém ainda ignorante das divisões impostas pela cultura, incapaz de discriminar conceitos dualistas.
Ao longo do texto, Laozi expressa estranheza em relação ao comportamento humano coletivo: todos parecem saber o que fazer, todos se distraem com festas e com a beleza exterior. Ele, porém, sente-se como um bebé — sereno, ignorante das regras do jogo, mas profundamente conectado à origem da vida: a “Grande Mãe”.
Antes de um ser humano entrar no plano físico para se individualizar, ele reside no útero cósmico da natureza. Em alguns aspetos, isso é análogo à experiência de ser um feto no ventre materno: enquanto estamos no útero, somos um com a mãe; tudo o que ela experimenta, nós também experimentamos. No nascimento, essa comunhão é cortada. Da mesma forma, antes de nascermos neste plano, éramos unos com a natureza — e, portanto, com a lei universal. Ao entrar no mundo manifestado, a tarefa torna-se redescobrir essa lei interior e restaurar a nossa capacidade espiritual inata. É assim que voltamos a estabelecer uma ligação direta com a natureza, a mãe cósmica do universo.
As pessoas que estudam o Dao diferem entre si. Espera-se que cada uma tenha as suas próprias ideias e abordagens. Muitos viajantes neste caminho sonham com a ideia de encontrar uma organização, ou de se refugiar num centro de retiro, mas essas instituições são raras — e há uma razão para isso. A maioria das pessoas que se sentem atraídas por este caminho são altamente individualizadas, do tipo não aderente, quase impossíveis de organizar. Geralmente os taoístas são livres pensadores, livres agires, almas independentes. São artistas, poetas, músicos, eremitas, curandeiros, adivinhos... Na China, costumam viajar de templo em templo, de mestre em mestre, de montanha em montanha — são os chamados “andarilhos das nuvens”. Mesmo nos mosteiros, cada um segue o seu rumo: uns dedicam-se às artes marciais, outros mergulham em meditação profunda. Alguns estudam textos antigos durante horas, outros cuidam do templo. Embora existam muitos caminhos para o Dao, no final todos conduzem ao mesmo lugar: a imersão e ligação à Fonte de tudo.
Ao caminharmos neste percurso rumo à unidade, precisamos de estar preparadas e preparados para lidar com os outros — com o que o taoismo chama “o mundo do pó” —, que podem não compreender o que estamos a fazer, nem para onde vamos. Algumas pessoas poderão mesmo achar que quem estuda o Dao está iludido ou perdido. Mas o importante é manter a humildade e permanecer no caminho, mesmo que esse seja um caminho sem caminho. Estar “confuso”, “inútil”, “vago como o mar” não é uma falha — é um estado fértil de abertura. Um convite à confiança no invisível, ao acolhimento do não saber.
Como reforça Solala Towler:
A viagem do Dao não é para diletantes nem para quem apenas coleciona experiências no “supermercado espiritual”. Precisamos de lançar raízes bem fundas antes de podermos começar a expandir-nos. O povo chinês diz que, ao procurar água, é melhor cavar um poço fundo do que muitos buracos rasos.
Esta viagem que estamos a fazer deve ser trilhada passo a passo — mesmo que uns passos sejam maiores que outros. Laozi escolhe viver a partir do ventre, do dantian, em vez de viver apenas pela cabeça. Alimenta-se da Fonte de toda a vida, enquanto os outros, as “pessoas do mundo”, se alimentam de ilusões. Ele está ligado ao yin primordial, sem princípio nem fim, enquanto os outros esgotam o seu yang, perseguindo sombras e fantasmas, convencidos de que estão a acumular as coisas boas e importantes da vida.
Este capítulo pode ressoar profundamente com quem já se sentiu fora do lugar num mundo que valoriza o ruído, o fazer e o saber constante. O texto convida-nos a abraçar o estado de presença simples, inocente, quase infantil — em ligação com a Grande Mãe, símbolo do Dao, da Fonte, daquilo que nos sustenta para além da razão.
Bibliografia
Lao Tse (2010). Tao Te King - O livro do Caminho e do Bom Caminhar. Relógio D'Água Editores [Tradução e Comentários de António Miguel de Campos].
Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.
Towler, S. (2019). Tao-Te King : uma jornada para o caminho perfeito : lições práticas sobre o taoismo. Editora Pensamento-Cultrix [prefácio de Chungliang Al Huang; tradução Claudia Gerpe Duarte e Eduardo Gerpe Duarte].
Texto revisto com OpenAI: ChatGPT [Software]. https://openai.com
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