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Podemos parar de tentar transformar-nos em melhores versões de nós mesmos?

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 7 de nov. de 2025
  • 3 min de leitura

A pergunta ecoa, com delicadeza e alguma surpresa interior: e se pudéssemos simplesmente “desistir” do esforço constante para sermos melhores versões de nós mesmos? Logo eu, que sou psicóloga e terapeuta, e que invisto diariamente em ajudar pessoas a saírem do modo automático e a viverem com mais autenticidade. Sou testemunha dos efeitos benéficos do autoconhecimento e das mudanças reais que ele proporciona. Mas também começo a notar — por observação e experiência pessoal — que existe um cansaço subtil e uma tirania silenciosa no projeto da “versão otimizada”.


O tapete rolante do autoaperfeiçoamento

A nossa cultura está saturada de vozes, produtos e gurus que prometem um Eu renovado, mais resiliente, mais produtivo, mais sereno. Livros, cursos, retiros, aplicativos — tudo incentiva a superação e o upgrade contínuo. E, no entanto, por trás desses estímulos, pode-se instalar ou perpetuar a velha voz interna do “não chegas”.


Mesmo quando abraçamos a meditação, a filosofia oriental ou práticas de aceitação, a lógica do desempenho infiltra-se quase sem darmos conta. Não basta “ser”; é preciso ser cada vez melhor.

Lembro-me de já ter pensado: “Meditei, mas distraí-me demasiado. Li sobre aceitação, mas continuo a julgar-me. Não implemento todas as estratégias que ajudo os outros a aplicar.”

É fácil que até a aceitação se torne um novo padrão de exigência.


A produtividade invade a alma

A ética da produtividade, típica do Ocidente, colonizou até o terreno dos estados interiores. Medita-se para render mais, faz-se mindfulness para combater o stress e melhorar a concentração — a presença transforma-se numa meta, e não num modo de viver.

O “sucesso” espiritual vira mais um capítulo – se não cumprimos à risca práticas e rotinas, surge a culpa: “Estou a falhar na atenção plena. Não avancei na minha jornada de autoconhecimento.”

A busca da “versão 2.0” tende a ignorar a maior lição da sabedoria oriental: a vida é inevitavelmente imperfeita (dukkha). O bem-estar autêntico reside na aceitação desta imperfeição — não na sua abolição.



O alívio de fazer uma pausa

E se parássemos? Não no sentido de resignação ou passividade, mas no sentido de doar a nós mesmos uns momentos de pausa.

Pausar o projeto de autoaperfeiçoamento não significa abdicar do crescimento: é recusar a exaustão autoimposta pelos ideais inalcançáveis de “auto-melhoria”. Isto permite-nos, paradoxalmente, descansar e aceder a uma forma mais profunda de autoaceitação.

Ser capaz de parar, de fazer menos, de escutar — este é o gesto realmente revolucionário num mundo obcecado pelo fazer.


O antídoto: presença e ternura

O verdadeiro propósito da meditação e da prática contemplativa nunca foi produzir melhores pessoas, mas sim afinar a presença, aprender a acolher o que já é.

Tive um professor que dizia:

“Uma mente caótica durante a meditação também merece a tua observação, não a tua intervenção.”

A não-luta, o não-esforço (wu wei), é o coração dessa sabedoria: repousar, sem necessidade de racionalizar, corrigir, consertar.


Para onde podemos ir, afinal?

Se deixarmos de lado a mentalidade de autotransformação, podemos voltar a experimentar:

Onde Estávamos

Para Onde Podemos Ir

Tentar corrigir defeitos

Aceitar complexidades e paradoxos

Listar metas e rotinas rígidas

Cultivar curiosidade e leveza

Sentir culpa por “faltar” às práticas

Praticar compaixão consigo mesmo

Procurar sempre novos hábitos

Apreciar a simplicidade do que já existe

Pergunta final: E se já fossemos suficientes?

E se, por um dia, pudéssemos experimentar não fazer nada para “ser melhor”, não competir nem connosco nem com os outros?

E se descobríssemos que a aceitação, afinal, é a fonte secreta onde a transformação verdadeira acontece — não porque nos tornámos alguém novo, mas porque já nos é permitido repousar, como somos?


Nota editorial

A revisão do texto contou com o apoio das ferramentas Gemini e Perplexity AI, utilizadas como assistente na clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos.

 
 
 

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