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O papel dos Mitos na Saúde Mental - Mitos como ferramentas terapêuticas

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 19 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

A história, entendida como cronologia dos acontecimentos, permite-nos responder superficialmente às grandes perguntas existenciais: Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos? Contudo, estas questões vão além do que uma abordagem histórica ou científica pode alcançar. A ciência materialista não é capaz de penetrar profundamente nestas questões fundamentais, que são essencialmente perguntas interiores, existenciais.


Os mitos oferecem-nos uma forma alternativa e poderosa de abordar estes enigmas. Eles são, na verdade, a história da alma humana, narrativas que refletem profundamente a nossa experiência interior e existencial. Em todas as tradições mitológicas, independentemente da cultura, encontramos sempre três grandes dimensões fundamentais:


  • Origem (de onde vimos): Uma ligação inicial com algo transcendente, um paraíso primordial.

  • Queda: Através da dúvida, curiosidade ou desafio, ocorre o desprendimento deste paraíso, lançando-nos numa jornada de provas e desafios.

  • Regresso (para onde vamos): Superadas as provas, regressamos à origem transcendental, recuperando a plenitude inicial, mas enriquecida pela experiência.


O mito trabalha com a evolução da nossa existência e com o propósito divino da alma humana, estabelecendo uma ponte entre o transcendente e o mundo interior. Neste sentido, enquanto a história é material, o mito é transcendente.


Como os mitos funcionam como ferramentas terapêuticas?


  • Os mitos permitem dar voz e forma às emoções e conflitos internos que não conseguimos facilmente expressar ou compreender.

  • Servem como espelhos que revelam padrões inconscientes, ajudando-nos a entender melhor o que ocorre dentro de nós.

  • Fornecem metáforas simbólicas que facilitam a compreensão e aceitação dos desafios da vida, apoiando-nos na superação de crises e transformações pessoais.


Vamos aprofundar com alguns exemplos práticos.


O mito de Perséfone - Luz e Sombra

Perséfone, jovem e inocente, é levada para o submundo por Hades. Inicialmente é uma vítima, mas com o tempo, transforma-se numa poderosa rainha desse domínio subterrâneo. Simbolicamente, este mito representa uma jornada interior através da escuridão (momentos de crise, depressão, ou perda), em direção ao autoconhecimento profundo e à maturidade emocional. Perséfone ensina-nos que, ao enfrentarmos as nossas sombras, encontramos a força e o poder pessoal necessários para a nossa evolução.


A jornada de Perséfone lembra-nos da importância fundamental de aceitarmos tanto a nossa luz como as nossas sombras interiores. Ao aceitar o domínio do submundo, Perséfone integra os aspetos ocultos, muitas vezes reprimidos, da sua personalidade, transformando-os em poder pessoal e sabedoria profunda.


O mito ensina-nos também sobre a importância de compreender e respeitar os ciclos da vida, tal como aprendeu Deméter, mãe de Perséfone. A sua tristeza ao perder a filha levou-a à compreensão de que a vida é feita de ciclos inevitáveis, que envolvem perdas e recuperações constantes. Esta sabedoria cíclica é essencial para a nossa saúde mental, permitindo-nos viver com maior equilíbrio e aceitação dos desafios da vida.


Além disso, Perséfone torna-se uma figura central na mitologia precisamente devido à sua experiência profunda e transformadora. É frequentemente mencionada como guia espiritual e emocional de outros heróis e heroínas, simbolizando a capacidade de orientação interior que todos podemos desenvolver após enfrentarmos as nossas próprias provas.


Por fim, é importante refletir sobre a diferença entre a jornada do herói (solar) e a jornada da heroína, representada por Perséfone. Enquanto na jornada solar o herói frequentemente "aniquila" o mal, na jornada da heroína existe uma integração dos aspetos sombrios, reconhecendo-os como partes necessárias e valiosas do nosso crescimento e transformação pessoal.


O mito das Selkies - O chamado ao mergulho interior

O mito das Selkies, seres marinhos que podem assumir a forma humana ao abandonar temporariamente a sua pele de foca, ilustra de forma poderosa a nossa relação com a vida interior. Quando a pele é roubada, a Selkie é forçada a viver uma vida humana, dedicando-se à família e à vida quotidiana, mas carregando sempre uma saudade profunda do mar.


Esta história ecoa a necessidade do ser humano de mergulhar no seu inconsciente, de cultivar a vida interior e de permanecer em contacto com a sua verdadeira natureza. A vida familiar e profissional, embora essenciais, podem tornar-se obstáculos quando impedem esse mergulho. O chamamento ao mar - à vida interior - nunca desaparece verdadeiramente. Está sempre à espera de ser escutado.


Nas civilizações antigas, era natural que, após cumprir as obrigações sociais na juventude e maturidade, as pessoas se dedicassem, na fase posterior da vida, à jornada interior, à busca de sabedoria. Hoje, essa transição é muitas vezes negada ou esquecida. A cultura contemporânea valoriza uma eterna adolescência, uma rebeldia superficial que oferece uma identidade frágil e desconectada das necessidades mais profundas.


O mito das Selkies lembra-nos que há um momento em que é legítimo e necessário "abandonar" certos papéis sociais e mergulhar no inconsciente para reencontrar a própria essência. Este processo não é apenas pessoal; é também um legado espiritual e simbólico para as gerações futuras. A vida humana não é apenas sobrevivência: é também transcendência. "Conhece-te a ti mesmo" é, talvez, o grande propósito que nunca deveríamos esquecer.


Dica Terapêutica


Convido a uma reflexão:

  • Que personagens ou situações destes mitos lhe dizem algo sobre si ou sobre a fase de vida em que se encontra atualmente?

  • Reconhece no seu caminho algum destes momentos (descida, prova, perda da "pele", ou recuperação do paraíso interior)?

  • Que mito ou história teve um significado especial na sua vida?


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Nota editorial

A revisão do texto contou com o apoio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), utilizada como assistente na clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos. Todas as imagens foram geradas por inteligência artificial (Freepik.com) e editadas para fins ilustrativos nesta edição.

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