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O Luto: um caminho entre Corpo, Mente e Espírito

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 9 de nov. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 11 de nov. de 2025

Há dores que chegam sem aviso – silenciosas, profundas. O luto é uma dessas presenças: um véu invisível que se estende sobre o corpo e a alma, lembrando-nos o mistério da vida e da morte. Mesmo sendo universal, é raramente nomeado – e talvez por isso doa tanto. Lidar com a perda é descobrir, ao mesmo tempo, como nos ligamos à vida e como somos tocados pela ausência.


O corpo que sente antes de saber

Quando o luto chega, é o corpo que denuncia primeiro: o coração acelera, o peito aperta, há insónia ou cansaço, a fome desaparece. Os nossos sistemas internos gritam antes que consigamos compreender. Neurociências mostram que a dor do luto percorre os mesmos caminhos que a dor física – por isso nos sentimos partidos, fisicamente esvaziados.


Tal como diz Fernando Pessoa:

“O instante é o arremedo / De uma coisa perdida.”

O sofrimento não é apenas psicológico; é também somático, gravado nos nossos ossos, no nosso sono e nas nossas lágrimas.​


A mente que narra e transforma

Do ponto de vista psicológico, o luto é um processo de integração e reconstrução. Não existem fórmulas, fases rígidas, nem calendários claros.


Durante muito tempo falou-se de “fases” do luto — negação, raiva, negociação, depressão e aceitação — modelo introduzido por Elisabeth Kübler-Ross. Hoje, compreendemos que o processo é mais dinâmico e individual: há idas e vindas, momentos de regressão e de avanço, numa oscilação natural entre dor e adaptação.

Sentir tristeza, raiva, culpa ou mesmo alívio faz parte da travessia – há espaço para todos estes sentimentos. O importante é não julgar o que se sente; é permitir que cada emoção se expresse e seja escutada.


O sofrimento não é sinal de fraqueza, mas parte do processo de cura. A psicologia contemporânea entende o luto também como um processo relacional, em que a pessoa aprende a manter uma ligação interna com quem ou com o que perdeu. Como dizia Viktor Frankl (citando Nietzsche):

“quem tem um porquê para viver pode suportar quase qualquer como.”

E o luto é, muitas vezes, o caminho para reencontrar esse porquê.​ O sentido é um exercício criativo – a ausência transforma-se em novo elo, invisível mas real.​


O espírito que atravessa o limiar

Do ponto de vista espiritual, o luto é rito, iniciação, alquimia.


O monge Thich Nhat Hanh escreveu:

“Quando alguém que amamos morre, continuamos a respirar por essa pessoa.”

Através da atenção plena, aprendemos que nada se perde — apenas se transforma. O luto torna-se então uma prática de inter-ser, um exercício de presença e continuidade do amor.


A morte não apaga vínculos; transforma-os. O amor é energia, e a energia não se extingue: aprende-se a amar de outro modo – sem posse, sem presença física, mas em consciência. Plantar uma árvore, acender uma vela, criar um altar de memórias são gestos que eternizam relações.​

O caminho do luto é como a travessia pela “noite escura da alma” de que falam os místicos: perde-se a forma, ganha-se o significado. Nigredo, albedo, rubedo – o ciclo da dor, integração e renovação.


O olhar coletivo: o luto do mundo

Vivemos tempos de luto coletivo. A pandemia, as guerras, as crises climáticas e a perda dos ecossistemas alteraram profundamente a perceção de segurança e de futuro.

Estamos a atravessar um luto social — pela perda de vidas humanas, de modos de vida, de estabilidade e até de fé no progresso. Este luto partilhado manifesta-se em formas subtis: ansiedade difusa, fadiga emocional, distanciamento social, desconfiança e sensação de impotência.


Reconhecer o luto coletivo é um ato político e espiritual. Significa admitir que o sofrimento não é apenas individual, mas também cultural. O mundo, tal como o conhecíamos, está a mudar — e o desafio é aprender a cuidar dessa dor planetária sem perder a esperança.


Como ensinava Frankl, mesmo nas circunstâncias mais sombrias,

“somos livres para escolher a atitude com que respondemos ao inevitável”.

E, como lembrava Thich Nhat Hanh:

“cuidar da dor do mundo é também cuidar de nós mesmos”.

O cuidado que cura

A integração do luto pede atenção a todos os níveis. O corpo precisa de descanso, movimento suave e alimento; a mente, de expressão – através da escrita, arte ou conversa; o espírito, de silêncio e sentido.


Práticas energéticas, como Reiki ou meditação, ajudam a restaurar o equilíbrio vital, acolher a dor e transformar o sofrimento.​

Experimenta respirar conscientemente, escrever cartas ou diários, ou ritualizar a vivência – o que é vivido com presença torna-se fonte de cura. E se a dor se tornar insuportável, pedir ajuda é gesto de coragem e cuidado: o amor próprio manifesta-se na busca por apoio.


A travessia que floresce

O luto não é esquecimento, é metamorfose. Permite viver com novo significado, sem apagar o passado.

“A relação não termina: é transformada.” OPP

Cada lágrima pode ser uma semente – com o tempo, o coração aprende a florescer onde antes doía.​


Amar na ausência, cuidar do invisível, seguir vivendo: eis a arte da travessia. O luto é a continuação do amor, contado agora em silêncio – porque, no fundo, nunca caminhamos sós.


Referências Bibliográficas

Kübler-Ross, E. (1969). On Death and Dying. Kübler-Ross, E. (1969). On Death and Dying.

Frankl, V. (1946). Man’s Search for Meaning: an introduction to logotherapy. Beacon Press.

Thich Nhat Hanh (2002). No Death, No Fear. Berkley Publishing Group.

Ordem dos Psicólogos Portugueses (2023). Vamos Falar sobre Luto.


Nota editorial

A revisão do texto contou com o apoio das ferramentas Perplexity e ChatGPT (OpenAI), utilizadas como assistente na clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos.

 
 
 

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