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O Dao e o Caos Primordial — Reflexão sobre o capítulo 25 do Dao De Jing

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 25 de mai. de 2025
  • 4 min de leitura

O capítulo 25 do Dao De Jing apresenta-nos o Dao como algo que preexiste ao universo manifestado.


Algo nasceu no caos primordial (hùn dùn),

antes do Céu e da Terra.

Silencioso. Vazio.

Independente. Imutável.

Presente em toda parte,

sem jamais se esgotar.

É a Mãe de todas as coisas sob o Céu.


Não conheço o seu nome.

Chamo-lhe “Dao”.

Forçando um nome, digo que é “Grande”.


Sendo grande, flui longe.

Fluindo longe, vai além.

Indo além, regressa.


Por isso, o Dao é grande.

O Céu é grande.

A Terra é grande.

A humanidade também é grande.


No universo, quatro são os grandes,

e a humanidade é um deles.


A humanidade segue a Terra,

a Terra segue o Céu,

o Céu segue o Dao,

e o Dao segue o que é espontâneo (zì rán).


O inominável que tudo gera

"Silencioso", "vazio", "independente" e "imutável", é descrito como a Mãe de todas as coisas sob o Céu. Esta descrição tenta nomear o inominável, uma realidade primordial que transcende linguagem e concepção. O Velho Mestre reconhece essa limitação ao afirmar: "Não conheço o seu nome. Chamo-lhe 'Dao'. Forçando um nome, digo que é 'Grande'". A grandeza do Dao não é estática: implica movimento, fluxo e retorno à origem.

Sendo grande, flui longe; fluindo longe, vai além; indo além, regressa.

O Dao e o caos primordial (Hun Dun)

O capítulo inicia com uma alusão ao hùn dùn (混沌), o caos primordial. Diferente do conceito ocidental de desordem, o hun dun representa um estado indiferenciado e pleno, anterior à dualidade. É o "ventre" do Dao, um vazio silencioso, vivo e criador. A relação entre Dao e hun dun pode ser compreendida de duas formas:


  • O Dao é o caos primordial: O hun dun é uma manifestação do Dao em sua forma mais pura e não manifestada. É a totalidade indiferenciada da qual tudo emerge.

  • O Dao nasce do caos primordial: O Dao é o princípio organizador que emerge do hun dun, agindo como lei natural. Esta visão aproxima-se mais do conceito de lǐ 理 (princípio), desenvolvido pelo Neoconfucionismo.


A interpretação daoista clássica tende a ver o Dao como a própria essência do hun dun, indivisível e autogeradora.


O conto de Hun Dun em Zhuangzi

Na famosa parábola de Zhuangzi, dois soberanos desejam ajudar Hun Dun, que não tem orifícios. Em sete dias, perfuram-lhe olhos, ouvidos, boca e nariz. Ao sétimo dia, Hun Dun morre. Esta história simboliza a destruição da espontaneidade e da totalidade quando se impõe uma ordem artificial ao que é natural e perfeito na sua "desordem". É uma crítica clara à racionalização excessiva e à intervenção forçada no curso natural das coisas.


O ciclo da separação

Com a perda do contacto com o Dao, surge a necessidade de regras, leis e moralidades externas. Estas tentam restaurar uma ordem perdida, mas perpetuam a fragmentação. O que começa como tentativa de organização acaba por nos afastar ainda mais do fluxo natural:

  • Perda do contato com o Dao.

  • Criação de regras externas.

  • Aumento da desarmonia.

  • Necessidade de mais regras.


Este é o paradoxo central da civilização sob uma ótica daoista.


A ordem dos Quatro Grandes

O capítulo 25 descreve quatro grandezas: o Dao, o Céu, a Terra e a Humanidade. Este não é um modelo hierárquico, mas relacional. Cada um segue o outro:

  • A humanidade segue a Terra.

  • A Terra segue o Céu.

  • O Céu segue o Dao.

  • O Dao segue o zì rán (o que é por si mesmo).


A grandeza humana reside em reconhecer e alinhar-se com essa ordem natural. A tentativa de controlar a Terra, ignorar o Céu ou manipular o Dao leva à desconexão e ao sofrimento.


Zì Rán: o espontâneo como lei

O Dao segue o zì rán (自然) — aquilo que é espontâneo, que é assim por si. O Dao é autogerado, não responde a uma lei exterior, mas à sua própria natureza. Seguir o Dao implica cultivar o wu wei (não-ação), a capacidade de agir sem forçar, em harmonia com o fluxo.


Impacto contemporâneo do afastamento do Dao

  • Na humanidade: stress, ansiedade, fragmentação interior.

  • Na Terra: crises ecológicas, exploração, desequilíbrio.

  • No Céu (simbólico): perda de referência espiritual, sentido e direção.


As estruturas humanas tentam compensar com mais controlo, mas isso apenas acelera a dissociação.


Práticas de reconexão com o Dao

  • Observar a natureza: Ritmos do corpo, estações, fases da lua.

  • Respiração consciente: Ancora a atenção e harmoniza o Qì.

  • Aceitação da imperfeição: A vida não se completa pela limpeza ou controlo, mas pela aceitação do ciclo.

  • Cuidar do que irá morrer: Amar sem apego, sabendo que o fim é parte do fluxo.

  • Viver o quotidiano como prática: Cozinhar, limpar, cuidar como meditação viva.


Reflexão final

O que há em ti que é anterior ao teu nome, à tua história, à tua identidade? Onde em ti repousa o caos primordial silencioso e fecundo?

A verdadeira grandeza não está em fazer mais, mas em estar mais profundamente alinhado com o que é. O Dao não exige nada de nós, apenas que nos tornemos permeáveis ao fluxo da vida.


Assim como ele flui longe, vai além e regressa à origem, que também nós possamos regressar a essa fonte silenciosa, de onde tudo emerge e para onde tudo retorna.


(Pode assistir ao resumo desta publicação aqui!)


Bibliografia

Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.

Zhuang Zi (2010). A virtude e o vício no caminho do homem perfeito. Largebooks. [Tradução Alberto Cardoso]


Nota editorial

A revisão do texto contou com o apoio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), utilizada como assistente na clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos.

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