Honra e Desgraça - Reflexão sobre o Capítulo 13 do Dao De Jing
- Raquel Silva
- 10 de fev. de 2025
- 5 min de leitura
No 13º capítulo do Dao de Jing, o Velho Mestre diz algo do género:
A honra e a desgraça estão relacionadas.
Aceite o infortúnio como parte da vida.
Como é que a honra e a desgraça estão relacionadas?
Quando recebemos a honra, ficamos com medo
de a perder.
Por isso, estão relacionadas.
Porque é que a honra e a desgraça nos assustam?
Porque é que temos de aceitar o infortúnio como parte da vida?
Porque quando temos um sentido limitado de nós próprios
experimentamos o infortúnio.
Se não tivéssemos um sentido limitado de nós próprios
como é que viveríamos o infortúnio?
Aqueles que valorizam o seu próprio bem-estar
tal como o resto do mundo
podem ser confiados com o mundo.
Aqueles que amam a sua vida
como se fosse o mundo inteiro
ser-lhe-ão confiadas todas as coisas sob o Céu.
A honra e a desgraça são vistas como opostas, mas estão ligadas. Quando recebemos reconhecimento ou vivemos o sucesso, a alegria traz consigo o medo de o perder. Assim, ambas perturbam a mente, pois dependem da opinião alheia. Na honra já existe a semente da desgraça! Isto perturba a alegria do sucesso e impede-nos de nele encontrar um apoio para ir além.
O Daoismo reconhece que a vida é repleta de infortúnios. Laozi diz que sofremos porque temos um senso limitado do eu — a nossa experiência de vida começa e acaba no corpo físico e mental individual. Mas, se expandirmos o nosso senso do eu, poderemos vislumbrar uma realidade mais ampla, e assim o sofrimento diminui. A adversidade não é algo externo a ser suportado, mas algo que deve ser integrado no fluxo da existência. Ao deixarmos de nos identificar apenas com o nosso ser limitado e expandirmos o eu para abranger os dez mil seres, elevamos a nossa consciência e percebemos que somos parte de um grande organismo vivo. Dessa forma, estamos em conexão com todos os seres sob o Céu, sendo merecedores da sua confiança.
Ao afirmar “Aqueles que valorizam o seu próprio bem-estar tal como o resto do mundo podem ser confiados com o mundo”, o Velho Mestre sublinha que quem cuida do mundo como de si mesmo pode governá-lo. Remete para um tipo de liderança natural, em que a pessoa sábia governa não pelo controlo, mas pelo alinhamento com o Dao.
Quando afirma “Aqueles que amam a sua vida como se fosse o mundo inteiro ser-lhe-ão confiadas todas as coisas sob o Céu”, ou seja, quem ama o mundo como a si mesmo recebe tudo sob o Céu, leva-nos ao conceito de unidade com o Todo. Neste sentido, António Campos comenta:
“Para quem encara o mundo como se fosse o seu corpo, o que é confunde-se com o que fez. É apenas o mundo que se 'apessoou'. O mesmo mundo que se 'engaivotou' nas gaivotas e se 'amaçanhou' nas maçãs…”
Há momentos na vida em que o sofrimento parece esmagador quando o seguramos nas nossas mãos, como um copo cheio de lama. Se o mantivermos pequeno e contido, toda a nossa atenção estará voltada para ele, e o seu peso parecerá insuportável. Mas, se o despejarmos num rio, ou melhor, num oceano, a lama continuará ali, mas já não terá a mesma importância. Por isso Laozi ensina-nos que sofremos porque nos vemos como algo separado do todo. Apegamo-nos às nossas experiências como se fossem únicas e absolutas. Mas, se expandirmos a nossa perceção, veremos que o sofrimento não é apenas "meu" — faz parte da experiência humana, da dança da existência. Quando percebemos que outros também já passaram por isto, que o sofrimento não nos isola, mas nos une, ele perde o seu peso absoluto.
Tal como o mar não rejeita um único rio que nele deságua, a vida acolhe todas as nossas alegrias e dores. No momento em que deixamos de resistir e permitimos que o sofrimento se dilua no grande oceano da existência, ele já não nos define. Neste sentido, propomos uma prática de inspiração daoista — uma prática de visualização — que nos ajuda a transcender o nosso limitado senso do eu.
Prática para Cultivar a Expansão do Eu

Demore o tempo necessário para sentir cada expansão sugerida. Permita que cada etapa se torne real, tangível, dentro do seu campo de energia. Reconheça que o seu verdadeiro eu não termina onde o corpo físico termina — ele é vasto, fluído e interligado com o Todo.
1. Enraizamento e percepção do centro
Fique em pé, sentado ou deitado. Feche os olhos e inspire lenta e profundamente. Sinta o fluxo da respiração a entrar e sair pelo nariz, como uma brisa suave.
Concentre-se no dantian inferior (o centro energético abaixo do umbigo), o núcleo da sua energia vital. Imagine-o como um pequeno sol interno, quente e brilhante, pulsando suavemente com cada respiração.
2. Expansão gradual
Agora, perceba que o seu campo de energia se estende além da pele, expandindo-se cerca de oito centímetros ao redor do corpo. Sinta esse campo como uma aura vibrante, um casulo de luz que pulsa suavemente ao ritmo da sua respiração.
Com uma nova respiração, permita que a sua presença se expanda ainda mais, preenchendo todo o aposento onde está. Sinta como se o ar do ambiente se tornasse parte de si. Você não está mais limitado à forma do seu corpo físico; agora, você é o espaço que o rodeia.
Continue a expandir-se. Agora, sinta-se a preencher toda a casa onde está. Sinta as paredes dissolverem-se na sua presença.
A sua energia cresce e cresce, expandindo-se pelo quarteirão, pela cidade inteira. Sinta-se como o vento que percorre as ruas, como a luz do sol que toca telhados e árvores.
Expanda-se ainda mais. Agora você é o continente inteiro, vasto como uma paisagem infinita. Você sente as montanhas, os rios, os oceanos dentro de si. Sinta a imensidão da Terra, a pulsação de cada ser vivo, de cada folha que balança ao vento, de cada gota de chuva.
E então, vá além. Torne-se o próprio planeta. Sinta-se como um ser colossal, girando no espaço, transportando consigo oceanos, florestas, desertos, cidades inteiras e todas as formas de vida. Você é o pulso da Terra, o sopro das marés, a brisa que percorre os vales.
Se desejar, continue a expansão. Permita-se dissolver nas estrelas, misturar-se ao brilho da Via Láctea. Vá tão longe quanto a sua mente puder alcançar. Torne-se o próprio Universo.
3. Retorno ao centro
Após algum tempo, comece a regressar lentamente.
Retorne ao tamanho do planeta, depois ao continente, à cidade, à casa, ao aposento, até que o seu corpo energético volte ao tamanho físico.
Sinta a energia vibrante dentro de si. Permaneça alguns instantes nesse estado, absorvendo a sensação de ser um ser imenso, porque é isso que você realmente é.
Reflexão final
Sofremos quando nos vemos como pequenos, isolados e limitados ao corpo físico. Mas esta prática ensina-nos que somos vastos, mutáveis, expansivos. Podemos crescer, diluir-nos no Todo, assumir diferentes formas.
Tal como um copo de lama despejado no oceano, o sofrimento não desaparece completamente, mas perde peso na imensidão do que somos. Quando sabemos que podemos expandir e contrair, o sofrimento deixa de nos aprisionar.
Você não é apenas um corpo. Você é um oceano. Um planeta. O Universo.
Bibliografia
Lao Tse (2010). Tao Te King - O livro do Caminho e do Bom Caminhar. Relógio D'Água Editores [Tradução e Comentários de António Miguel de Campos].
Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.
Towler, S. (2019). Tao-Te King : uma jornada para o caminho perfeito : lições práticas
sobre o taoismo. Editora Pensamento-Cultrix [prefácio de Chungliang Al Huang; tradução Claudia Gerpe Duarte e Eduardo Gerpe Duarte].
Texto revisto com OpenAI: ChatGPT [Software]. https://openai.com
Imagem criada com inteligência artificial generativa [freepik.com].
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