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Limerência: Quando a Paixão Vira Obsessão e Como Reencontrar o Caminho

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 6 de nov. de 2025
  • 8 min de leitura

Atualizado: 11 de nov. de 2025

A limerência é um estado poderoso e, por vezes, avassalador. Não é apenas uma paixão, mas sim um estado cognitivo e emocional involuntário que se caracteriza por um intenso desejo romântico por outra pessoa, combinado com uma necessidade obsessiva e angustiante de ter o sentimento correspondido.

O termo foi cunhado pela psicóloga Dorothy Tennov, em 1979, ao estudar pessoas que se sentiam “apaixonadas” de forma involuntária, persistente e com forte dependência da resposta do outro.


Neste texto, mergulhamos no fenómeno da limerência, desvendando os seus sinais e explorando como a sabedoria psicológica e as terapias holísticas podem ajudar a transformar a obsessão em consciência e a carência em liberdade emocional.



O Que É a Limerência e Por Que Não é Amor Simples


A limerência trata-se de uma mistura de paixão, fantasia, obsessão e ansiedade — que muitas vezes é confundida com amor, mas que funciona segundo mecanismos bem diferentes. Difere da paixão comum pela sua intensidade e foco:

  • Obsessão Intensa: O limerente tem pensamentos intrusivos e recorrentes sobre a pessoa desejada (que iremos designar por "Objeto Limerente" - OL).

  • Idealização Cega: O OL é idealizado de forma exagerada, com os defeitos a serem ignorados e as qualidades supervalorizadas, criando uma imagem perfeita e irreal.

  • Busca Ansiosa de Reciprocidade: A felicidade e o estado emocional dependem exclusivamente dos sinais de interesse do OL, gerando grande ansiedade e angústia quando a reciprocidade é incerta.


A felicidade e o valor pessoal passam a depender do comportamento do objeto limerente.


É crucial distinguir: O amor maduro foca-se no respeito, aceitação e partilha real, enquanto a limerência foca-se na obsessão, idealização e dependência ansiosa. A limerência concentra-se mais na falta do que no encontro.

Limerência

Amor maduro

Idealização e fantasia

Conhecimento real do outro

Ansiedade, dependência

Segurança emocional

Necessidade de validação

Cuidado e partilha recíproca

Obsessão invisível

Relação construída no quotidiano

A Abrangência: Não É Apenas Para Adolescentes


A limerência não se limita a jovens ou indivíduos solteiros, podendo atingir qualquer faixa etária e manifestar-se em diversos contextos:

  • Relações Comprometidas: Pode surgir de forma extraconjugal , levando a dilemas morais e crises conjugais, onde a euforia obsessiva se choca com o compromisso estabelecido.

    • Exemplo: Carlos (55 anos), em terapia de casal, idealiza Susana, uma conhecida das redes sociais, chegando a passar horas a planear como sair do casamento para a "conquistar", comparando-a obsessivamente com a esposa.

  • Contextos Platónicos: Muitos casos são platónicos, direcionados a colegas de trabalho ou amizades inacessíveis, onde a falta de reciprocidade alimenta a incerteza e a idealização, o motor principal da obsessão.

    • Exemplo: Pedro (25 anos), depois de conhecer Sara em três ocasiões, começa a sentir a obrigação de ir a todos os eventos onde ela possa estar (stalking social). Ele rejeita convites de outras pessoas porque a simples possibilidade remota de reciprocidade de Sara lhe paralisa a vida.


O foco obsessivo drena a energia mental, causando queda no desempenho laboral, dificuldade de concentração e grande sofrimento.


Limerência Patológica: Sinais de Alerta


Quando a limerência se torna patológica, enquadra-se no Amor Patológico (ou dependência emocional). O foco deixa de ser o desejo e passa a ser a compulsão e dependência.


Sinais de que o estado está a causar prejuízo:

  • Prejuízo Funcional: Abandono de hobbies, estudos ou trabalho para dedicar tempo ao OL.

  • Comportamentos Obsessivos: Vigilância constante e stalking digital (verificação de redes sociais, mensagens). A obsessão torna-se torturante e incessante (insónia, ruminação, ciúmes intensos).

  • Dependência Extrema: Sentimentos intensos de angústia e tristeza (sintomas de abstinência) quando há distância ou interrupção de comunicação.

  • Tolerância ao Prejuízo: O indivíduo mantém o comportamento obsessivo mesmo quando há evidências de que é prejudicial ou desrespeitoso.

  • Baixa Tolerância à Rejeição: Reações exageradas a qualquer sinal de desinteresse ou afastamento.


⚠️ Se sentir que estes sintomas causam sofrimento intenso e afetam gravemente a sua qualidade de vida, procurar apoio profissional (psicologia ou psiquiatria) é crucial.


Porque algumas pessoas sentem limerência e outras não?


Os estilos de vinculação explicam muito. A limerência está profundamente ligada à forma como aprendemos a amar e a ser amados/as.


  • Estilo ansioso-ambivalente

    • É o estilo com maior risco de limerência.

    • Tendência a idealizar relações

    • Medo constante de rejeição

    • Busca intensa por validação

    • Hiper-atenção a sinais do outro

    • A incerteza é vivida como promessa → obsessão por reciprocidade

  • Estilo evitante

    • Pode gerar limerência quando:

      • O interesse é por alguém “indisponível”

      • Há distância emocional que mantém o desejo vivo

    • O evitante deseja conexão mas protege-se, criando relações impossíveis que preservam a autonomia → A limerência torna-se um “amor seguro” porque nunca se concretiza totalmente e a fantasia permite “sentir amor” sem enfrentar a intimidade real.

  • Estilo desorganizado

    • Mistura intensa de desejo e medo.

    • Atração por relações instáveis

    • Ciclos intensos de aproximação e rejeição, grande sofrimento

    • Respostas emocionais extremas → Pode viver ciclos de idealização e desespero muito fortes, com risco de sofrimento prolongado.


Resumindo, a limerência é alimentada pela incerteza → quanto mais ambiguamente o outro responde, maior a obsessão.

Quem tem uma história de vínculo inseguro:

  • associa amor a imprevisibilidade

  • confunde intensidade com ligação

  • interpreta pequenos gestos como sinais decisivos

  • tem dificuldade em autorregular emoções e ansiedade relacionada com rejeição


A limerência é frequentemente um pedido de segurança afetiva não atendido. Por isso, o Estilo de Vinculação Seguro tende a ser menos vulnerável à limerência.

  • Consegue procurar reciprocidade real

  • Regula melhor expectativas e emoções → Pode sentir paixão intensa, mas com maior contacto com a realidade e menos obsessão.


A limerência pode transformar-se em amor?

Sim — se houver reciprocidade real e se a idealização der lugar à aceitação.

Mas se só vive na fantasia… tende a morrer quando a realidade chega.


O Papel da Psicologia e das Terapias de Apoio


O objetivo não é apagar o sentimento, mas recuperar a autonomia.


Superar a limerência requer um trabalho multifacetado que combina intervenções psicológicas estruturadas com práticas de mindfulness e autocuidado.


1. Abordagem Cognitivo-Comportamental (TCC)

A TCC atua diretamente nas distorções cognitivas e comportamentais:

  • Identificação da Idealização: Usa a técnica do Teste da Realidade (Desidealização) para quebrar a fantasia, desafiando o paciente a procurar evidências concretas das falhas do OL.

  • Quebra de Hábito: Implementa a Prevenção da Resposta, proibindo estritamente a verificação de redes sociais e o envio de mensagens impulsivas.

  • Regulação Emocional: Ensina o paciente a observar a ansiedade e a euforia, criando um espaço entre o pensamento e a ação.


2. Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT) e Desfusão Cognitiva

A ACT complementa a TCC, focando na relação com o pensamento, e não no conteúdo.

  • O Princípio: A Desfusão Cognitiva é a habilidade de descolar-se dos pensamentos, vendo-os como eventos mentais temporários (um rádio a tocar), e não como fatos literais.

  • Técnica da Observação: O limerente aprende a dizer: "Estou a ter o pensamento de que ele não me está a ligar e que isto é um desastre", em vez de pensar: "Ele não me está a ligar; isto é um desastre!". Isto retira o poder do pensamento de ditar o comportamento.


3. Mindfulness e Escrita Consciente (Journaling)

O Mindfulness é vital para regressar ao momento presente e interromper a ruminação.

  • Etiquetagem de Pensamentos: Reconhecer o pensamento obsessivo e etiquetá-lo mentalmente como "Fantasia" ou "Pensamento Limerente".

  • Âncora no Corpo: Usar a respiração ou sensações físicas para acalmar o sistema nervoso e tolerar a emoção desconfortável.

  • Journaling Terapêutico: O registo estruturado ajuda a desfazer a idealização e a separar fantasia e realidade. Perguntas sugeridas: "O que estou a projetar nesta pessoa que me falta em mim?"; "Este desejo aproxima-me ou afasta-me da vida que quero?"; “Que prova real tenho de que existe reciprocidade?”; “Que partes da minha história este padrão está a tocar?”; "O que na minha história faz com que a incerteza se torne tão sedutora?"; "Como reconheço a diferença entre estar apaixonada/o e estar à espera de validação?"; "A intensidade que sinto aproxima-me ou afasta-me de relações reais?" ou "A minha ansiedade traduz amor ou medo de abandono?".


4. Terapias Complementares (Apoio Holístico)

Terapias como Reiki, EFT ou Ho'oponopono não substituem a psicoterapia , mas podem ser excelentes coadjuvantes:

  • Reiki/EFT: Ajudam a reduzir o stress e a ansiedade profunda. A EFT pode diminuir a intensidade de emoções específicas ligadas ao pânico da rejeição.

  • Ho'oponopono: Incentiva o foco na auto-responsabilidade e na limpeza dos padrões internos, em vez de culpar o OL.


O papel das redes sociais no ciclo obsessivo


As redes sociais atuam como um combustível constante para a limerência, fornecendo acesso contínuo ao Objeto Limerente (OL) e alimentando as necessidades centrais da obsessão: a idealização e a incerteza.

  • Acesso permanente ao perfil do outro → stalking digital

  • Pequenas interações (visualizações, likes) funcionam como reforço intermitente

  • O algoritmo nota o interesse e passa a mostrar ainda mais conteúdo daquele perfil

    • Quanto mais a pessoa verifica… mais o sistema reforça a limerência.

    • A idealização cresce sobre uma imagem filtrada e perfeita.

    • A vida real perde espaço para a vida imaginada!


Por isto, o "bloqueio digital" é uma das estratégias mais críticas e difíceis de implementar na limerência. O objetivo é criar uma distância digital inegociável para que a mente possa começar o processo de desidealização e desapego.

Aqui estão as técnicas específicas e os passos para implementar um bloqueio digital eficaz:

  • Bloquear → Não apenas deixar de seguir, bloquear.

  • Aplicativos de Controlo de Ecrã (Screen Time Apps): Use as funcionalidades nativas do seu telemóvel (iOS Screen Time ou Android Digital Wellbeing) para bloquear o acesso às aplicações de redes sociais ou navegadores em horários críticos (ex: à noite, quando a obsessão é maior).

  • Desativar Notificações (o toque ou aviso de uma nova notificação pode desencadear uma resposta imediata de ansiedade e a esperança de que possa ser do OL).

  • Gerir os "Gatilhos" (Triggers) - os gatilhos são o que nos faz voltar a procurar o OL, mesmo após o bloqueio, para isso:

    • Bloquear amizades em comum (Temporariamente)

    • Evite consumir filmes, músicas ou podcasts que remetam emocionalmente para o OL ou para a fase limerente. Crie uma nova lista de reprodução com músicas neutras ou positivas.

    • Arquivar ou apagar permanentemente o histórico de mensagens e fotos que envolvam o OL → o risco de rever o material e reacender a idealização é muito alto.

  • Criação de Barreiras Físicas - Esta é a componente comportamental que apoia o bloqueio digital:

    • Se a compulsão for esmagadora, dê as suas palavras-passe de redes sociais a uma pessoa amiga ou familiar de confiança e peça-lhes para as mudarem, ficando impedido/a de aceder aos perfis. Isto é uma "barreira de segurança" de emergência.

    • Se a obsessão se manifesta principalmente num local (ex: no sofá à noite), mude de local para realizar atividades relaxantes (ex: leia um livro na cozinha).

  • Estratégias de Substituição (quando o impulso de verificar o OL surge - e ele vai surgir, deve ser substituído por uma ação predeterminada):

    • Regra dos 5 Minutos: Quando sentir o impulso de pegar no telemóvel para procurar o OL, comprometa-se a esperar cinco minutos. Use este tempo para fazer uma técnica de mindfulness (como a respiração consciente ou a etiquetagem de pensamentos). Na maioria das vezes, o impulso passará.

    • Plano de Ação de Emergência: Ter uma lista de 3 a 5 atividades substitutas prontas (ex: sair para uma caminhada, ligar a alguém, fazer 10 flexões). Quando o impulso de stalking digital surge, escolha imediatamente uma dessas ações.


O bloqueio digital não elimina a limerência da noite para o dia, mas é o passo mais vital para interromper o ciclo de reforço e criar o espaço para que as terapias cognitivas e emocionais possam fazer o seu trabalho.


Rumo à Liberdade Emocional

A limerência é um estado mental que aprisiona a pessoa na fantasia. Se está a vivê-la, não há vergonha nisso. Mas a sua vida não precisa de ser governada por ela.


Lembre-se: Relações não se constroem no silêncio do scroll. Constroem-se com presença, realidade e reciprocidade. O caminho para a liberdade emocional passa por resgatar a sua autonomia e aprender a validar o seu próprio valor, independentemente do que o Objeto Limerente pensa.


Se os seus sintomas de limerência estão a causar sofrimento intenso ou a prejudicar a sua vida funcional, procure apoio profissional qualificado.


Nota editorial

A revisão do texto contou com o apoio das ferramentas Gemini e ChatGPT (OpenAI), utilizadas como assistente na pesquisa, clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos.

 
 
 

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