Jejuar e aquietar a mente - Reflexão sobre o Capítulo 4 do Dao De Jing
- Raquel Silva
- 28 de jul. de 2024
- 6 min de leitura
Atualizado: 11 de jan. de 2025
Entramos no quarto capítulo do Dao De Jing (道德經 Dào dé jīng), sendo este um dos mais enigmáticos e profundos, na medida em que reflete a natureza paradoxal e misteriosa do Dao:
O Dao é um recipiente vazio;
é usado mas nunca esgotado.
É a origem insondável
dos dez mil seres!
Ele afia o afiado
e desata os nós.
Suaviza o brilho
e une-se ao pó do mundo.
É tranquilo e sereno
e perdura para sempre.
Não sei de onde vem
mas é o antepassado de todos nós.
Neste capítulo o Velho Mestre começa a atribuir qualidades ao mistério que é o Dao, começando por compará-lo a um recipiente que, apesar de estar vazio, nunca se esgota, independentemente de quanto seja utilizado. Isto sugere a infinita e inesgotável natureza do Dao, que pode ser aproveitado continuamente sem perder a sua essência ou capacidade.
De seguida, o Velho Mestre descreve o Dao como a fonte misteriosa e profunda de todas as coisas (os "dez mil seres" representam todas as manifestações do universo), enfatizando que o Dao é a origem de toda a existência. Mas não fica por aqui, e o Velho Mestre diz-nos que o Dao tem a capacidade de refinar o que já é afiado (ou seja, aguçar a sabedoria) e de resolver problemas (ito é, desatar os nós), o que pode ser interpretado como a habilidade do Dao de aprimorar e esclarecer.
Apesar de todas estas qualidades maravilhosas, o Dao suaviza o brilho excessivo, evitando extremos, e mistura-se humildemente com o pó do mundo, o que indica a sua natureza modesta e não exibicionista, refletindo a ideia de equilíbrio e harmonia com o mundo.
O Velho Mestre fala ainda da tranquilidade e serenidade do Dao, qualidades que lhe permitem perdurar eternamente, concluindo o capítulo salientando que a origem do Dao é desconhecida e misteriosa, mas é reconhecida como a fonte primordial de todas as coisas, reforçando a ideia de que o Dao é a base subjacente de toda a existência, transcendente e além da compreensão humana.
Este capítulo do Dao De Jing destaca a natureza paradoxal e misteriosa do Dao, que é simultaneamente vazio e inesgotável, simples e profundo, sereno e eterno. A obra aponta para a necessidade de nos harmonizarmos com o Dao, aceitando a sua natureza indefinível e integrando as suas qualidades de humildade, equilíbrio e serenidade na vida quotidiana. E como o podemos fazer isto?
Segundo o Velho Mestre, esvaziar o coração-mente de conceitos cria a possibilidade da pessoa ser preenchida pelo Dao. E que conceitos são estes? São todos os conceitos e estratégias que a nossa cultura, sociedade e história pessoal nos incutiram e incutem. Investimos tanto de nós na manutenção das "máscaras" (a criança educada, a mãe cuidadora, o marido provedor, etc. etc. etc.) e na gestão das circunstâncias e desafios da vida, que pouca energia nos resta para o prazer e a criatividade.
Zhuangzi ensina que a mente quieta atrai grandes benefícios, enquanto a mente agitada é como um cavalo selvagem. Para "domar" este cavalo o autor recomenda a prática do "jejum da mente", ou seja, cultivar um estado de desapego mental e emocional de preocupações e desejos mundanos. Zhuangzi usa a metáfora do jejum para enfatizar a importância de esvaziar a mente das distrações e condicionamentos que impedem a percepção direta do Dao.
No "jejum da mente", a pessoa deixa de lado as suas opiniões, preconceitos e desejos egoístas para alcançar uma percepção mais pura e clara da realidade. Este estado de jejum mental não é apenas uma ausência de pensamentos, mas uma prática de desapego e purificação interior, envolvendo uma atitude de não se apegar às ideias fixas ou às emoções perturbadoras, permitindo assim que a mente fique receptiva e em harmonia com o fluxo natural da vida.
Mas não chega jejuar, Zhuangzi diz que é igualmente necessário cultivar a "quietude da mente", referindo-se a um estado de serenidade e calma interior. A quietude da mente é alcançada quando a mente deixa de estar agitada com desejos, medos ou ansiedades. É um estado de paz profunda onde a mente está em completo repouso, livre de pensamentos perturbadores. Para Zhuangzi, a quietude da mente é essencial para nos conectarmos com o Dao. Quando a mente está tranquila, a pessoa pode perceber a verdade de maneira mais direta e espontânea, sem a interferência dos julgamentos e preconceitos habituais. Esta quietude permite uma compreensão intuitiva e uma resposta natural aos eventos da vida, em vez de uma reação baseada no medo ou desejo.
Trazendo para uma linguagem mais contemporânea, a descrição de Zhuangzi assemelha-se ao termo "estado de Flow" (ou "fluxo" em português), popularizado pelo psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi. O Flow é uma experiência de total imersão e envolvimento numa atividade, um estado em que a pessoa está de tal forma absorvida na tarefa que perde a noção do tempo e do espaço ao redor. Este estado é frequentemente associado a altos níveis de satisfação e desempenho, podendo ser alcançado em diversas atividades, como desporto, música, escrita, arte, trabalho, ou até mesmo em tarefas quotidianas, desde que estejam alinhadas com os interesses e habilidades da pessoa. Algumas características do estado de Flow são:
Foco Intenso e Concentração: A pessoa está totalmente concentrada na tarefa, sem distrações;
Fusão da Ação e da Consciência: As ações tornam-se quase automáticas, e a pessoa sente que está a "fluir" com a atividade;
Perda da Autoconsciência: A pessoa não se preocupa com o julgamento das outras e esquece-se de si mesma.
Percebe a semelhança? Na tradição do cultivo interior também se fala da busca da "quietude dentro do movimento", tal como acontece nas práticas de Qigong (氣功 qìgōng) e Taiji quan (太極拳 tàijí quán); e do "movimento dentro da quietude", presente nas práticas meditativas.
A "quietude dentro do movimento" pressupõe a pessoa alcançar a quietude interna total enquanto se move, o que corresponde a um estado muito elevado de prática;
O "movimento dentro da quietude" pressupõe que a pessoa, quando em estado meditativo (de quietude total tanto no interior, como no exterior), as suas forças internas começarão a mover-se por si próprias. A fase inicial deste estado é conhecida como “a mente conduz o qi”, o que significa que a energia vital irá para onde a mente fluir. À medida que a pessoa progride, a mente sai do caminho, o qi flui por si próprio e o movimento acontece natural e espontaneamente.
Na filosofia de Zhuangzi, "jejum da mente" e "quietude da mente" são práticas essenciais para alcançar um estado de desapego, serenidade e conexão profunda com o Dao, permitindo uma vida em harmonia com a natureza e o universo. Na prática, ambos os conceitos envolvem técnicas de meditação e introspecção que ajudam a libertar a mente das suas fixações e agitações. Através destas práticas, o indivíduo cultiva um estado de harmonia interior que reflete a ordem natural do Dao.
Prática para cultivar o Vazio Interior
Sente-se, fique de pé ou deite-se e comece a respirar lenta e profundamente no seu dantian inferior. Sinta todo o seu abdómen inferior expandir-se com cada respiração, desde a frente, os lados e a parte inferior das costas. A cada expiração, expire completamente, esvaziando os pulmões enquanto a parte inferior do abdómen se contrai o mais possível. Faça isto até sentir um estado de calma e centramento.
Inspire e depois expire completamente, concentrando-se na expiração, sentindo todo o ar dos pulmões a sair como o ar de um balão. Sinta cada vez mais este estado de vazio. Deixe que todos os pensamentos, imagens e emoções fluam para fora do seu corpo e mente até se tornar um recipiente vazio.
Permita que o seu foco se suavize e se expanda.
Depois, simplesmente fique, permaneça sem expectativas, sem agenda e sem medo. Permaneça calmamente na quietude, vazio e pronto/a para receber. Pode acontecer que receba informação ou orientação nesta altura. Se achar que não se vai lembrar e quiser escrever, faça-o rapidamente, sem parar para pensar. Depois, volte à meditação.
Quando sentir que chegou ao fim da sessão, esfregue as palmas das mãos uma na outra, trinta e seis vezes, e depois massaje o rosto.
Agradeça e leve esta atitude para o seu dia.
O Dao, sendo o "antepassado de todos nós", aponta para uma conexão universal e fundamental entre todas as formas de vida e o cosmos, incentivando uma visão de unidade e interdependência. A prática constante leva à harmonia consigo e com o universo revelando a essência do Dao.
Referências bibliográficas
Chuang Tse (1992). Capítulos Interiores. Editorial Estampa. [Tradução António Manuel Guedes de Campos, sobre a versão em língua inglesa de Gia-Fu Feng e Jane English]
Zhuang Zi (2010). A virtude e o vício no caminho do homem perfeito. Largebooks. [Tradução Alberto Cardoso]
Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.
Zhang, E.Y. (2019). Forgetfulness and flow: “Happiness” in Zhuangzi’s Daoism. Science, Religion and Culture, 6(1): 77-84
OpenAI. (2021). ChatGPT [Software]. https://openai.com/
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