A Sabedoria que Não se Vê: Comentário ao Capítulo 27 do Dao De Jing
- Raquel Silva
- 7 de jun. de 2025
- 5 min de leitura
Uma das belezas do Dao De Jing está na sua capacidade de dizer muito com poucas palavras. O capítulo 27 é um desses textos breves que, quando lidos com atenção, revelam ensinamentos profundos sobre a verdadeira sabedoria, a relação entre mestre e discípulo, e o valor de tudo o que existe — mesmo aquilo que o mundo costuma rejeitar.
Aquele que é bom a caminhar não deixa rastos.
Aquele que é bom a falar não se contradiz.
Aquele que é bom a contar não precisa de ábacos.
Aquele que é bom a fechar não precisa de tranca,
mas o que fecha ninguém consegue abrir.
Aquele que sabe atar não precisa de corda,
mas o que ata jamais se desfaz.
Por isso, o sábio ajuda sem excluir ninguém.
Cuida das coisas sem rejeitar nada.
A isto se chama luz penetrante.
Assim, quem é bom é mestre de quem ainda não o é.
E quem ainda não o é, é discípulo de quem já o é.
Não honrar o mestre,
ou não amar o discípulo —
mesmo com muito saber, haverá desorientação.
Isto é o grande mistério.
A mestria invisível
O capítulo começa com imagens curiosas:
"Quem é bom a caminhar não deixa marcas. Quem é bom a falar não comete erros. Quem é bom a fechar não precisa de trancas. Quem é bom a atar não precisa de corda."
Aqui, Lao Zi fala de uma mestria que não se exibe. A pessoa verdadeiramente sábia não se impõe, não deixa rastros — atua com tamanha harmonia com a vida que parece nem estar a agir. Este é o famoso conceito de wu wei, que não significa “não fazer nada”, mas sim agir sem forçar, em total sintonia com o fluxo natural das coisas.
A sabedoria, diz o texto, não precisa de mostrar que é sábia. Ela revela-se na simplicidade, na eficácia sem ostentação, na presença silenciosa que transforma sem dominar.
Luz penetrante: a sabedoria que inclui
Depois, o capítulo dá um salto do técnico para o humano:
"Por isso, o sábio ajuda sem excluir ninguém. Cuida das coisas sem rejeitar nada. A isto se chama luz penetrante."
Esta luz não é apenas inteligência ou clareza — é uma sabedoria compassiva que vê valor em tudo e todos. O sábio não rejeita aquilo que parece imperfeito. Não classifica pessoas como “boas” ou “más”. Ele entende que tudo faz parte do grande tecido da existência.
Num mundo que valoriza a eficiência e o mérito, esta postura parece subversiva. Mas Lao Zi propõe uma sabedoria que não seleciona, não descarta — simplesmente acolhe. Esta é a luz penetrante: uma visão profunda que atravessa as aparências e reconhece a essência.
Mestre e discípulo: crescer juntos
Na parte final do capítulo, encontramos este ensinamento:
"O bom é mestre do que ainda não é bom. O que ainda não é bom é discípulo do bom. Se não se honra o mestre, ou se não se ama o discípulo, mesmo com muito saber, haverá confusão. A isto se chama o grande mistério."
Aqui está um dos grandes tesouros do texto. Lao Zi diz que a verdadeira sabedoria só existe se houver respeito e humildade. Quem sabe mais deve guiar com compaixão. Quem sabe menos deve estar aberto a aprender. Quando esta troca é feita com respeito mútuo, cresce-se juntos.
Não se trata de impor autoridade nem de criar hierarquias rígidas. Trata-se de reconhecer que o mestre só é mestre porque existe alguém a aprender — e o aprendiz é tão essencial quanto o guia. Um só existe com o outro. É a dança entre dar e receber.
A sabedoria que se transmite
Este capítulo também ecoa algo muito presente nas tradições espirituais e esotéricas: a ideia de que o conhecimento verdadeiro é passado de coração para coração, como uma chama que se transmite. Ensinar é garantir que essa luz não se apague. E mais — ao ensinar com amor, plantamos sementes que podemos colher no futuro, talvez até noutras vidas.
A luz penetrante de que fala o texto é, assim, uma sabedoria viva, que atravessa gerações e se perpetua na relação entre mestre e discípulo. E o grande mistério é este: ao ajudar os outros a crescer, crescemos também. Ao acolher o imperfeito, tocamos o todo.
Em resumo
O Capítulo 27 do Dao De Jing é um convite a cultivar uma sabedoria que não se mostra, mas transforma. Que não rejeita, mas inclui. Que não ensina para corrigir, mas para revelar. Uma sabedoria que atua no silêncio, acolhe com humildade e se perpetua no cuidado com o outro.
Num tempo em que somos levados a competir, a provar valor e a excluir o que não serve, Lao Zi propõe algo revolucionário: caminhar sem deixar marcas, falar sem ferir, ensinar sem se impor, aprender sem se envergonhar. Talvez seja essa a verdadeira arte de viver.
Prática: O Caminho do Refinamento (cultivo interior)
Seguir o Dao é embarcar num caminho de refinamento contínuo — um processo alquímico em que o bruto se transforma no sutil, o reativo dá lugar ao consciente, e a dureza cede à fluidez.
Tal como o mestre que ata sem corda e ensina sem impor, o praticante do Dao aprende a tornar-se cada vez mais sensível, atento e integrado. Com o tempo, já não são necessárias lições duras, porque o coração está mais disponível para aprender.
Esse refinamento traz luz — mas também pode trazer desconforto. O que antes parecia normal pode agora parecer demasiado pesado, agressivo ou artificial. E isso é um bom sinal. É sinal de que está a mudar.
Reflita:
O que já não ressoa consigo como antes?
Há alimentos que o seu corpo já não tolera?
Há relações que lhe parecem grosseiras ou drenantes?
Há hábitos que já não nutrem — mesmo que fossem “normais” para si?
Há ambientes que sobrecarregam, mesmo que antes fossem indiferentes?
Essa crescente sensibilidade pode ser desafiadora, mas é também a sua bússola interior a afinar-se. Pede silêncio, pede simplicidade, pede alinhamento.
Pequenos gestos de refinamento:
Desligue os ecrãs por uns minutos e respire profundamente.
Observe uma árvore, uma nuvem, uma criança — algo que não exija nada de si.
Quando falar, seja como aquele que não precisa de se corrigir.
Quando ouvir, seja como aquele que aprende com tudo — mesmo com os erros dos outros.
Quando escolher, pergunte-se: isto refina ou entorpece o meu espírito?
Refinar é um ato de coragem.
A cada gesto, escolhe entre o chumbo e o ouro.
(Assista ao resumo desta publicação aqui!)
Bibliografia
Lao Tse (2010). Tao Te King - O livro do Caminho e do Bom Caminhar. Relógio D'Água Editores [Tradução e Comentários de António Miguel de Campos].
Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.
Nota editorial
Este trabalho contou com o apoio de ferramentas de inteligência artificial na fase de pesquisa — Perplexity.ai e Gemini (Google). A revisão do texto contou com o apoio da ferramenta ChatGPT (OpenAI), utilizada como assistente na clarificação de ideias, revisão linguística e organização de conteúdos.
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