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A paradoxal jornada de regresso a Casa - Reflexão sobre o Capítulo 1 do Dao De Jing

  • Foto do escritor: Raquel Silva
    Raquel Silva
  • 7 de jul. de 2024
  • 8 min de leitura

Atualizado: 11 de jan. de 2025

“Livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas”. Mário Quintana

O Dao De Jing (道德經, Dào dé jīng) é um dos textos mais antigos e influentes da sabedoria chinesa, sendo atribuído ao filósofo Lao Zi (老子, Lǎo zǐ; literalmente "Velho Mestre").


A ideia de encontrar o caminho para a nossa verdadeira casa, o Dao (道 Dào), como descrito por Laozi, está profundamente enraizada na filosofia chinesa antiga, sendo o Dao a origem de todas as coisas, o princípio primordial do universo; enquanto o De (德 Dé) é a manifestação desse princípio. Esta dualidade entre Dao e De, o não-ser e o ser, o misterioso e o manifesto, é central para a compreensão da natureza do mundo e do próprio ser humano. Logo no primeiro capítulo, Laozi utiliza o termo "xuan", que significa "misterioso" e "escuro", para refletir a essência do Dao, que é muitas vezes comparado à cor do Céu ou das montanhas vistas ao longe. Laozi descreve essa qualidade como um "mistério dentro do mistério", sugerindo algo que transcende a compreensão humana. Nesse sentido, tanto o Dao quanto o De são vastos e complexos, representando um caminho para a sabedoria e a harmonia universal.


Com estas publicações, não pretendemos versar sobre a obra do ponto de vista histórico, filosófico ou académico. A nossa proposta é partilhar reflexões, sobre autoconhecimento e busca da harmonia interior, que o texto nos convida a fazer; é partilhar como no Jade Lavanda aplicamos os ensinamentos da antiguidade na nossa prática diária e na vida.


Então, começando pelo princípio, no primeiro capítulo encontramos a seguinte mensagem (ou algo similar, dependendo da tradução):


O Dao que pode ser falado

não é o Dao verdadeiro e eterno.

O nome que pode ser nomeado

não é o Nome verdadeiro e eterno.

Não ser é a origem do Céu e da Terra.

Ser é a mãe dos dez mil seres (wan wu).

Assim no reino do não ser pode-se

Ver a fonte misteriosa de todas as coisas.

No reino do ser

Pode-se ver as manifestações do Dao.

Estes dois têm a mesma origem

Mas são chamados por nomes diferentes.

São ambos misteriosos e profundos.

Mistério dentro de mistério –

A porta de todas as maravilhas maravilhosas.


Laozi, com sabedoria, entrega orientações para nos guiar numa jornada misteriosa e de expansão da consciência. Convida-nos a trilhar um caminho que nos levará de volta à Origem, ao Dao, que é o cerne desta busca. No entanto, desde o início, o Velho Mestre alerta-nos de que esta viagem transcende a capacidade de ser descrita ou compreendida por meras palavras - a realidade desta jornada não pode ser contida em definições ou limitações, pois está além da linguagem convencional. Os nomes e conceitos que encontramos ao longo do caminho não são absolutos nem eternos, mas sim representações transitórias do que estamos prestes a vivenciar. Ele adverte-nos para não tentarmos restringir ou simplificar esta experiência complexa e única, pelo que devemos cultivar um estado de receptividade a todas as possibilidades e nuances que surgirem ao longo do percurso, mesmo que ele seja por vezes inexplorado e confuso.


Segundo Solala Towler, a viagem proposta por Laozi pode ser melhor compreendida como uma peregrinação interna, uma jornada da alma em busca de significado e conexão com o transcendental. À medida que nos aventuramos por entre os obstáculos e encantos do Caminho, é essencial manter uma postura de abertura e flexibilidade perante as surpresas e desafios que encontramos. É somente através dessa abertura e disponibilidade que poderemos verdadeiramente absorver os ensinamentos e revelações que esta jornada tem a oferecer. Ao seguir as direções sugeridas pelo Velho Mestre, recebemos o convite para nos tornarmos verdadeiros "intronautas" - isto é, exploradores de nós mesmos/as - e desvendar os mistérios da nossa própria essência e existência. Cada passo dado nesta jornada aproxima-nos da compreensão do nosso lugar no universo e da conexão com o divino que permeia todas as coisas. É um convite para transcender as limitações da mente e da personalidade, e mergulhar nas profundezas do nosso ser interior.


Um pormenor interessante, é que a peregrinação proposta por Laozi não se limita a um destino final ou a uma meta predeterminada, mas sim à própria jornada. Cada momento, cada desafio, cada descoberta ao longo do caminho é parte integrante da transformação e do crescimento interior que essa peregrinação proporciona. É a jornada em si que nos molda e ensina, que nos conduz à compreensão da verdadeira natureza da vida e da existência. Portanto, ao nos aventurarmos neste Caminho sem mapa, devemos ter presente que a beleza e a riqueza da jornada residem na sua imprevisibilidade e na sua capacidade de nos surpreender a cada passo. É na incerteza e no desconhecido que encontramos as maiores oportunidades de aprendizagem e expansão da consciência. É através da entrega e da confiança no fluxo da vida que nos abrimos para as infinitas possibilidades que se apresentam diante de nós.


Aprofundando a análise deste primeiro capítulo, e seguindo o olhar do discípulo do Velho Mestre, Zhuangzi (Zhuāngzǐ 莊子), a humanidade afastou-se do Dao ao confiar excessivamente nas distinções entre as coisas:

"O conhecimento das antigas pessoas realizadas era vasto e profundo, pois o seu conhecimento remontava a antes do tempo em que havia distinções entre as coisas. Mais tarde vieram as pessoas que começaram a fazer distinções entre as coisas, mas não lhes davam nomes. Depois começaram a dar-lhes nomes, mas ainda não distinguiam entre o certo e o errado. Então, quando o certo e o errado apareceram, o Dao perdeu-se".

A jornada de regresso a Casa exige-nos transcender as "distinções entre as coisas", as noções de ser e não-ser, certo e errado, pois só assim conseguimos alcançar um estado de unidade e integração com o universo. Laozi e Zhuangzi convidam-nos a habitar num lugar sem limites, onde não há dualidades que nos separem da essência primordial. É nesse espaço de não-distinção que podemos encontrar a verdadeira morada, a nossa casa eterna no Dao. Se nos fixarmos em rotular e categorizar as coisas, corremos o risco de perder de vista a essência do Todo e desconectamo-nos da fonte primordial da vida - perdemos o Caminho, o Dao.


No pensamento chinês, o conceito de Dao representa a ordem natural do universo, a harmonia inerente a todas as coisas. A noção de não-ser, que transcende as distinções, aponta para a necessidade de ver para além das aparências superficiais e das divisões artificiais que criamos. O não-ser é o criador do Céu e da Terra. Para o povo chinês, o conceito de Céu (tiān 天) difere da concepção cristã, não sendo visto como um paraíso pós-morte, mas sim como a fonte da vida. Quando o Céu está emparelhado com a Terra (dì 地), toda a vida, tal como a conhecemos, é criada e depois sustentada. Juntos, Céu e Terra, são a fonte e o alimento de toda a vida, "os dez mil seres".

Desta forma, o não-ser e o ser são dois aspectos da mesma coisa:

  • Se olharmos com os olhos do não-ser ou da não-dualidade, podemos ver e experimentar a Fonte, o Dao;

  • Se olharmos para as coisas com os olhos do ser, vemos as manifestações do Dao no mundo que nos rodeia.

Ao compreendermos que o Dao está presente em tudo e que o Céu é a fonte da vida, podemos reconectar-nos com a essência primordial e resgatar o equilíbrio perdido.


Para alcançar este estado de harmonia e compreensão, é necessário aprender a confiar no desconhecido, a confiar no que não podemos ver claramente à nossa frente. Isto requer uma abertura da mente e do coração para aceitar o mistério e a incerteza como parte do caminho.


No mundo atual, cheio de distrações, desejos e ilusões, encontrar o caminho de volta para casa pode parecer uma tarefa árdua. No entanto, seguindo os ensinamentos de Laozi e Zhuangzi, podemos aprender a cultivar a simplicidade, a aceitação e a humildade nas nossas vidas. Ao deixarmos de lado as noções preconcebidas e as tentações da personalidade, podemos abrir espaço para a verdadeira essência do Dao se manifestar nas nossas vidas. A prática da meditação, da contemplação e do desapego podem ajudar-nos a encontrar esse caminho de volta para casa, para a fonte primordial de todas as coisas. Assim, ao nos rendermos ao mistério do Dao, ao nos abrirmos para a vastidão do universo e ao nos conectarmos com a essência divina que habita em nós e em todas as coisas, podemos encontrar a paz, a harmonia e a plenitude que tanto buscamos.


O caminho para casa, para a nossa verdadeira casa no Dao, está sempre ao nosso alcance, esperando que tenhamos coragem e sabedoria para trilhá-lo com humildade e gratidão.


Autocultivo e meditação

Uma forma de cultivar esta conexão é confiar na visão interior. O taoísmo ensina que a mente reside no coração. Ao aquietar o coração, permitimos que a nossa mente se abra para todo o conhecimento que já possuímos. Laozi, o Velho Mestre, encoraja-nos a deixar de lado o conhecimento superficial dos livros e regressar ao conhecimento intuitivo que surge quando nos conectamos com o nosso interior. Para alcançar este estado de consciência expandida, é essencial aprender a desligar a tagarelice incessante que muitas vezes preenche os nossos pensamentos. Esta prática de quietude mental pode ser cultivada ao passarmos tempo nos lugares calmos e tranquilos do nosso interior, onde podemos conectar-nos com a nossa essência mais profunda e escutar a voz silenciosa da nossa intuição - a famosa "Voz do Silêncio" que nos descreve Blavatsky.


O autocultivo, como recomendado pelo taoísmo, envolve dedicar tempo e esforço para desenvolver esta conexão interna e nutrir o conhecimento intuitivo que reside em cada um e cada uma de nós. É um processo de aprendizagem contínua, que nos convida a olhar para dentro e a confiar na sabedoria que emerge quando nos sintonizamos com a nossa visão interior. Ao praticarmos a escuta atenta e a observação silenciosa do nosso mundo interno, somos capazes de acessar insights profundos e obter orientações que podem guiar-nos nas nossas jornadas pessoais e espirituais.

É neste espaço de quietude e introspeção que descobrimos a verdadeira essência de quem somos e encontramos as respostas que procuramos para viver de forma mais autêntica e alinhada com o nosso propósito mais elevado.


Que possamos, então:

  • continuar a nossa peregrinação com coragem, humildade e gratidão, com abertura para receber as bênçãos e os desafios que nos aguardam ao longo do caminho;

  • abraçar a incerteza e a complexidade da jornada com serenidade e confiança, sabendo que cada experiência, por mais desafiadora que seja, é uma oportunidade para o crescimento e a evolução da alma;

  • seguir o exemplo das pessoas realizadas da antiguidade remota, cujo conhecimento abrangia a totalidade do universo sem se perder em divisões e dualidades;

  • seguir adiante com o coração aberto e a mente desperta, como seres prontos para se renderem ao mistério e à magia da jornada rumo ao nosso verdadeiro eu;

  • reconectar-nos com o Dao, com o não-ser que permeia todas as coisas, e encontrar a verdadeira essência da vida;

  • cultivar o autoconhecimento e confiar na nossa visão interior como um guia para a nossa jornada de crescimento e transformação.


Que possamos, enfim, caminhar em equilíbrio e harmonia com o universo, transcendendo as distinções para abraçar a unidade e a interconexão de todas as coisas.


(Pode assistir a um vídeo com o resumo desta publicação aqui!)


Referências bibliográficas

Chuang Tse (1992). Capítulos Interiores. Editorial Estampa. [Tradução António Manuel Guedes de Campos, sobre a versão em língua inglesa de Gia-Fu Feng e Jane English]

Towler, S. (2016). Practicing the Tao Te Ching - 81 Steps in the Way. Sounds True.

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